A extrema-direita brasileira, vestida com pele do bolsonarismo rude e ignaro, não gosta do que é genuinamente brasileiro. Preferem falar e escrever (mal) em inglês do que em português; enrolam-se, literalmente, na bandeira americana ou na de Israel; consideram chiquérrimo bebericar uma dose de uísque, mas, apreciar uma boa cachaça, é desprezível, coisa de “cachaceiro” ou de “pinguço” – termos que brotam de suas bocas com uma generosa dose de preconceito e discriminação. Informações do ZecaBlog.
Chamam qualquer pessoa de “cachaceiro” pra lembrar a ela sua origem pobre, humilde, lá dos cafundós do Judas de onde nunca deveriam ter saído. Os que saem, e sobressaem, são atacados com ódio porque estão a ocupar um espaço que não lhes pertence, posto que sempre esteve reservado aos bem-nascidos, aos herdeiros naturais de um sistema seletivo, sempre pronto a ecoar: não há sociedade para todos!
Cachaça, sim, há para todos, apreciadores ou não, desse produto genuinamente brasileiro, que, muito além do prazer e do contentamento, gera riqueza, emprego e pesa favoravelmente em nossa balança comercial. Os “patriotas entreguistas” não sabem, e nem querem saber, que os Estados Unidos reconheceram, em abril de 2013, a cachaça como bebida exclusiva e genuinamente brasileira, jogando por terra o maior preconceito para com essa bebida tão nacional quanto o samba e a paixão pelo futebol.
A cachaça é a segunda bebida mais vendida no Brasil, perdendo apenas para a cerveja, que é fermentada. Cerca de 6,9 litros de cachaça são consumidos por cada brasileiro anualmente. No mundo, a bebida é o terceiro destilado mais consumido, perdendo apenas para a coreana Soju (destilado de arroz) e a Vodca, em segundo lugar.
A “marvada” da cachaça, que depois virou bendita, surgiu em meio aos escravos, adquiriu a pecha de bebida de gente desqualificada e sem classe. Foi manipulada pelos nossos colonizadores para estimular o trabalho dos escravos e depois proibida porque podia estimular rebeliões. Ao ser proibida, ficou melhor ainda e virou orgulho nacional, obrigando os portugueses a voltar atrás na proibição.
Em outras palavras, temos ótimas cachaças produzidas a partir da cultura dos negros e dos colonizadores portugueses e, mais recentemente, de imigrantes alemães no Sul do país. Essa mistura brasileira é de enlouquecer qualquer sulista dos Estados Unidos. Também deixa desorientada a extrema-direita bolsonarista a espalhar ódio destilado e preconceito fermentado em caldeiras de ressentimentos e egoísmos que estão nas raízes do Brasil colonial.
Tomarei uma dose, quiçá duas, entre as tantas maravilhosas cachaças que tenho no meu Armário das Recordações, em homenagem ao povo brasileiro, aos que acreditam numa sociedade melhor, mais justa e cada vez mais livre de preconceitos e discriminações de qualquer espécie. Vou ouvir Cachaça Mecânica, do bom, velho e eterno Erasmo Carlos. Claro, não pode faltar a Marvada Pinga que nos “atrapaia”, ao mesmo tempo em que nos orienta e nos engrandece, com o mestre Rolando Boldrin e seus “causos bãos”.
PS – Antes que eu me esqueça: “beba com moderação”, e, “se beber, não dirija”, e, “se dirigir não beba, seja o motorista da vez”.


