A poucos dias da convenção do PL no Distrito Federal, a eventual candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado permanece cercada de expectativa. A ex-primeira-dama ainda não confirmou se disputará uma das duas vagas em jogo nas eleições de outubro, mas chega ao momento decisivo respaldada por pesquisas que a colocam entre os principais nomes da corrida eleitoral brasiliense.
Nesta sexta-feira (31), o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que Michelle pretende conversar com o ex-presidente Jair Bolsonaro antes de tomar uma decisão. A expectativa é que a definição ocorra até domingo (2), quando o PL realizará sua convenção estadual em Brasília.
“Se ela é candidata ao Senado, ela falou que vai resolver com o marido dela, porque tem que cuidar do marido. Ela vai decidir isso provavelmente até domingo”, afirmou Valdemar.
O dirigente foi além ao dizer que Jair Bolsonaro terá peso determinante na escolha. “Quem vai decidir é o Bolsonaro, se ela sai candidata ou não. Porque ela está lá com ele, cuidando dele, e ela tem esse problema pela frente. É muito difícil fazer campanha”, declarou.
A indefinição contrasta com a situação de Michelle nas pesquisas. Mesmo sem ter confirmado formalmente que estará nas urnas, a ex-primeira-dama aparece no grupo que lidera a disputa pelas duas cadeiras do Distrito Federal no Senado.
Levantamento do Paraná Pesquisas divulgado em 20 de julho mostrou a senadora Leila do Vôlei com 39,2% das intenções de voto, seguida de perto por Michelle Bolsonaro, com 36%. A deputada federal Erika Kokay aparece logo depois, com 28,4%.
Na sequência estão Bia Kicis, com 18,3%; Rafael Prudente, com 15,6%; e Sebastião Coelho, com 9,8%.
Como cada eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado, os percentuais não devem ser interpretados da mesma maneira que uma pesquisa para presidente ou governador. A liderança de Leila e Michelle, portanto, indica que ambas aparecem com elevada frequência entre as duas escolhas dos entrevistados.
Outro cenário do mesmo levantamento reforça a competitividade de Michelle. Sem Bia Kicis na relação de candidatos, Leila alcança 40,5%, Michelle sobe para 37,7%, Erika Kokay registra 29,8%, Rafael Prudente aparece com 18,1% e Sebastião Coelho com 14,1%.
Os números revelam um cenário particularmente interessante: Michelle ainda não entrou oficialmente na campanha e, mesmo assim, já disputa as primeiras posições.
Esse desempenho transforma sua decisão em uma das peças mais importantes para a montagem do tabuleiro eleitoral do Distrito Federal.
A força da ex-primeira-dama também aparece quando os entrevistados são questionados espontaneamente, sem receber uma lista de candidatos. Michelle registra 4,9%, Erika Kokay 3% e Leila do Vôlei 2,7%. Embora a grande maioria dos eleitores ainda não tenha definido espontaneamente seus candidatos ao Senado, a liderança de Michelle nesse levantamento indica um grau relevante de reconhecimento de seu nome.
A pesquisa ouviu 1.500 eleitores do Distrito Federal entre os dias 17 e 19 de julho. A margem de erro é de 2,6 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Mas a eventual candidatura de Michelle envolve muito mais do que pesquisas.
Uma confirmação mexeria diretamente com a estratégia do PL no Distrito Federal. O partido possui outros nomes interessados nas vagas ao Senado e precisará acomodar diferentes grupos políticos dentro de uma chapa capaz de aproveitar o eleitorado bolsonarista na capital federal.
Michelle possui uma vantagem que poucos candidatos conseguem reproduzir: além de ter sido primeira-dama, tornou-se uma das principais figuras políticas do bolsonarismo e construiu uma imagem própria junto ao eleitorado conservador, especialmente entre mulheres e segmentos evangélicos.
Ao mesmo tempo, uma campanha ao Senado significaria uma mudança importante em sua trajetória. Até agora, Michelle exerceu influência política sem ocupar cargo eletivo. Uma vitória em outubro a transformaria, pela primeira vez, em detentora de mandato próprio e lhe daria uma plataforma institucional independente dentro da direita brasileira.
É justamente aí que a disputa pelo Senado do DF ganha dimensão nacional.
Uma eventual eleição de Michelle não representaria apenas mais uma cadeira conquistada pelo PL. Colocaria no Congresso uma das figuras de maior projeção do grupo político ligado a Jair Bolsonaro e poderia ampliar seu peso nas decisões internas do partido e na reorganização da direita nos próximos anos.
Também existem consequências caso Michelle decida não disputar.
Sua retirada abriria imediatamente uma corrida pelo eleitorado conservador que hoje aparece associado ao seu nome. Outros candidatos do campo da direita tentariam ocupar esse espaço, e o próprio PL teria de reorganizar sua estratégia para as duas vagas disponíveis.
Para Leila do Vôlei e Erika Kokay, a presença ou ausência de Michelle igualmente altera o desenho da eleição. Com a ex-primeira-dama na disputa, a corrida tende a se concentrar inicialmente em três candidaturas de forte reconhecimento público. Sem Michelle, abre-se espaço para o crescimento de outros nomes e para uma redistribuição significativa das intenções de voto.
Há ainda outro componente político. Depois das divergências recentes envolvendo integrantes da família Bolsonaro e das discussões sobre o espaço que Michelle ocupará no PL e no próprio campo bolsonarista, uma candidatura ao Senado permitiria que ela passasse a construir uma trajetória eleitoral própria.
Por isso, a decisão esperada para este fim de semana ultrapassa os limites de uma simples escolha de candidatura.
Michelle precisa decidir se transforma em votos o capital político que acumulou nos últimos anos. O PL precisa definir como organizará sua chapa no Distrito Federal. E Jair Bolsonaro continua exercendo influência direta sobre uma decisão capaz de modificar tanto a eleição brasiliense quanto a configuração futura do bolsonarismo.
As pesquisas mostram que Michelle não precisaria começar uma eventual campanha tentando se tornar competitiva. Ela já partiria entre os nomes mais fortes da disputa.
A questão que permanece, às vésperas da convenção do PL, é outra: Michelle Bolsonaro decidirá usar essa força eleitoral para conquistar seu primeiro mandato?


