Brasília, 09/08/2026

Netanyahu rejeita plano de Trump e abre nova crise entre Israel e EUA

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou publicamente o plano de paz de 15 pontos defendido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar a guerra em Gaza. Segundo o jornal britânico The Guardian, a decisão representa uma rara divergência pública entre os dois aliados e cria um novo obstáculo aos esforços da Casa Branca para negociar a paz no Oriente Médio.

O plano foi apresentado pelo Conselho de Paz de Trump e prevê o desarmamento do Hamas em troca da retirada completa das forças israelenses da Faixa de Gaza. Em uma etapa posterior, o controle do território seria transferido para um Comitê Nacional Palestino independente.

Trump pretende que o acordo seja implementado gradualmente. Netanyahu, porém, quer que a ordem seja outra: primeiro o desarmamento completo do Hamas e somente depois qualquer retirada militar israelense.

Em declaração divulgada no domingo, Netanyahu afirmou que Israel não aceitará o documento de 15 pontos enquanto o Hamas não estiver totalmente desarmado.

Para o primeiro-ministro, não basta uma redução do arsenal ou um acordo parcial. Ele exige a retirada de todas as armas do grupo palestino, incluindo armamentos pesados e leves.

De acordo com o The Guardian, a rejeição de Netanyahu foi mais contundente do que as manifestações anteriores do governo israelense e pareceu dirigida diretamente à Casa Branca.

O episódio coloca Trump diante de um problema político e diplomático. O presidente americano pretende construir a imagem de negociador capaz de encerrar conflitos internacionais, mas encontra resistência justamente de um dos principais aliados dos Estados Unidos na região.

A dificuldade não se limita a Gaza. A Casa Branca tenta avançar simultaneamente em negociações envolvendo Gaza, o Líbano e o Irã. Os conflitos estão interligados e qualquer acordo em uma frente pode depender de avanços nas demais.

Netanyahu, por sua vez, enfrenta forte pressão dentro de Israel. Com eleições previstas para outubro, o primeiro-ministro precisa manter o apoio de setores da direita israelense, que defendem uma postura dura contra o Hamas e rejeitam concessões que possam representar uma vitória para os palestinos.

Nesse cenário, a resistência a Trump também pode ser uma estratégia eleitoral. Ao afirmar que Israel defenderá sua posição mesmo diante de seus melhores amigos, Netanyahu procura demonstrar aos eleitores israelenses que não aceitará pressão externa quando estiver em jogo aquilo que considera a segurança do país.

O responsável pelo Conselho de Paz de Trump para Gaza, Nickolay Mladenov, reagiu defendendo a proposta americana. Segundo ele, o plano continua sendo o único caminho capaz de impedir que a tragédia provocada pela guerra se repita.

O impasse representa um golpe nos planos de Trump. O presidente americano precisa mostrar resultados diplomáticos em um momento especialmente delicado. As eleições de meio de mandato se aproximam e um acordo de paz poderia reforçar sua imagem de líder capaz de colocar fim a guerras.

Há também um forte componente econômico. A Casa Branca deseja negociar a paz com o Irã para permitir a reabertura do Estreito de Ormuz, importante rota mundial de transporte de petróleo. A normalização do tráfego na região ajudaria a reduzir a pressão sobre os preços internacionais da energia e sobre o custo dos combustíveis nos Estados Unidos.

Para Trump, portanto, a paz no Oriente Médio não é apenas uma questão de política externa. Ela também envolve economia, petróleo e política eleitoral. O problema é que os interesses americanos e israelenses começam a se afastar.

O The Guardian lembra que presidentes americanos anteriores também tiveram dificuldades para lidar com Netanyahu. Durante o governo de Bill Clinton, o primeiro-ministro israelense já era considerado um interlocutor difícil.

A relação continuou complicada durante o governo de Joe Biden. Embora Biden tenha demonstrado preocupação com o número de mortos em Gaza, seu governo manteve o apoio público a Netanyahu e não suspendeu de maneira significativa a ajuda militar americana a Israel.

Trump, entretanto, apresenta um estilo diferente. Apesar de Netanyahu ser um aliado político próximo, o presidente americano é conhecido por decisões mais imprevisíveis e pode decidir pressionar Israel para conseguir o acordo que deseja.

Outro fator começa a pesar na política americana: o apoio à guerra de Gaza vem diminuindo entre setores do Partido Democrata. A mudança, segundo o The Guardian, também começa a aparecer entre os republicanos. O vice-presidente JD Vance, considerado um dos nomes importantes para a sucessão republicana em 2028, tem demonstrado publicamente maior ceticismo em relação ao apoio americano a Israel e à continuidade da guerra em Gaza.

Essa transformação pode afetar a tradicional relação entre Washington e Tel Aviv. Netanyahu, portanto, precisa lidar simultaneamente com Trump, com a pressão interna em Israel e com uma mudança gradual na opinião pública americana.

Trump, por sua vez, terá de escolher entre pressionar seu aliado israelense ou preservar a relação política com Netanyahu. Se aumentar a pressão, poderá provocar resistência entre os grupos americanos mais favoráveis a Israel.

Se recuar, corre o risco de ver seu plano de paz ficar paralisado indefinidamente. Para o The Guardian, essa disputa representa algo maior do que uma simples divergência sobre os termos de um acordo para Gaza.

Ela envolve o futuro do Hamas, a segurança de Israel, a situação no Líbano, as negociações com o Irã, o Estreito de Ormuz, o preço do petróleo e os interesses eleitorais de Trump e Netanyahu.

O resultado poderá definir o futuro do plano de paz americano. Mas poderá também produzir uma consequência ainda mais importante: uma mudança na tradicional relação entre Estados Unidos e Israel.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o destino de Gaza. É também saber até onde Trump está disposto a pressionar Netanyahu para alcançar seu objetivo de se apresentar como o presidente americano capaz de encerrar as guerras do Oriente Médio.

Tags

Gostou? Compartilhe!