Brasília, 02/11/2026

Nísia Trindade leva a defesa do SUS e da ciência à Câmara

Eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro, a ex-ministra da Saúde chega ao Congresso em 2027. A Revista Fórum contrapõe sua vitória à derrota de Nise Yamaguchi e lamenta que o físico Ricardo Galvão tenha ficado sem uma vaga.

A sanitarista Nísia Trindade (PT) foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro e levará à Câmara uma trajetória ligada à pesquisa, à vacinação e à saúde pública. Primeira mulher a comandar o Ministério da Saúde, ela assumiu a pasta no início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023.

Oriunda da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia defendeu o uso de evidências científicas nas decisões de saúde pública durante a pandemia de Covid-19. No ministério, priorizou a retomada do Programa Nacional de Imunizações, o fortalecimento da atenção básica e a recuperação da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS).

A Revista Fórum atribui a saída de Nísia do ministério a resistências à sua postura na liberação de emendas parlamentares. A publicação avalia que sua eleição reforça a representação da ciência e da saúde pública em um Congresso no qual, na leitura da revista, as forças conservadoras terão vantagem numérica a partir de 2027.

O artigo contrapõe a vitória da ex-ministra à derrota da médica Nise Yamaguchi (PL), que disputou uma vaga de deputada federal por São Paulo. Durante a pandemia, Yamaguchi integrou um grupo informal de aconselhamento ao governo Jair Bolsonaro e defendeu a hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19.

A médica manteve a defesa da hidroxicloroquina mesmo depois que estudos internacionais descartaram benefício clínico no tratamento da doença. Também questionou a necessidade de vacinação em massa e de medidas mais rígidas de distanciamento social. Suas posições foram criticadas por entidades médicas e universidades públicas, enquanto o Conselho Federal de Medicina defendia, à época, a autonomia dos profissionais para prescrever tratamentos.

A Fórum também lamenta a derrota eleitoral do físico Ricardo Galvão (Rede), que exerceu mandato na Câmara entre 2025 e 2026 após assumir como suplente. O cientista ganhou projeção em 2019, quando dirigia o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Jair Bolsonaro contestou publicamente os dados oficiais que indicavam avanço do desmatamento na Amazônia.

Galvão defendeu a metodologia do sistema de monitoramento Deter e a integridade dos dados divulgados pelo Inpe. Foi exonerado após o embate com Bolsonaro e, naquele mesmo ano, entrou na lista da revista britânica Nature de dez pessoas que marcaram a ciência.

Para a Fórum, Galvão e Nísia poderiam atuar juntos na Câmara em pautas que vão do financiamento da pesquisa à proteção da saúde pública e do meio ambiente. A publicação vê na eleição da ex-ministra uma oportunidade para levar ao debate parlamentar a experiência de quem esteve à frente da política nacional de saúde após a pandemia.

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