Brasília, 07/10/2026

Os limites da palavra

Luiz Carlos Bordoni

Eduarda Campopiano saiu das urnas como um dos maiores fenômenos das eleições paulistas de 2026. Aos 23 anos, vereadora de Praia Grande, conquistou 1.956.238 votos e tornou-se a deputada estadual mais votada de São Paulo. Conservadora, antifeminista assumida e dona de enorme presença nas redes sociais, representa inequivocamente uma parcela expressiva do eleitorado paulista. Esse fato precisa ser respeitado.

Mas votos, ainda que sejam quase dois milhões, não funcionam como salvo-conduto. Campopiano está sendo denunciada ao Ministério Público por duas parlamentares.

Sofia Favero, deputada estadual eleita pelo PSOL, acusa-a de transfobia e violência política de gênero por uma publicação dirigida à deputada federal Erika Hilton. Campopiano chamou Hilton, uma mulher trans, de “homem biológico”, ao comparar as votações obtidas pelas duas. A publicação alcançou milhões de visualizações.

Em outra frente, Sônia Guajajara decidiu levar ao Ministério Público Federal declarações feitas anteriormente por Campopiano sobre indígenas. Em participação em um podcast, a jovem política associou povos indígenas a canibalismo, sacrifícios e enterro de crianças vivas. A liderança indígena Katú Mirim já havia registrado ocorrência por racismo em razão dessas declarações.

Diante disso, aparece nas redes sociais um argumento previsível: seria inveja.

Inveja de uma jovem que obteve quase dois milhões de votos? Pode haver quem tenha. Política é feita por seres humanos, e seres humanos sentem inveja, ressentimento, admiração e todas as demais paixões, mas isso não resolve a questão.

A pergunta correta não é se alguém inveja Eduarda Campopiano. É se as palavras pronunciadas por ela ultrapassaram ou não os limites jurídicos da liberdade de expressão e isso quem deverá responder são as instituições competentes.

As denunciantes têm todo o direito de provocar o Ministério Público. Campopiano tem exatamente o mesmo direito de apresentar sua defesa. O Ministério Público deverá analisar os fatos e, havendo processo, caberá à Justiça decidir.

É importante preservar essa sequência porque vivemos tempos perigosos em que uma acusação nas redes sociais frequentemente já vem acompanhada da sentença. Não deveria ser assim.

Mas existe também uma dimensão que antecede o Código Penal: a responsabilidade política da palavra.

Campopiano tem todo o direito de ser conservadora. Pode combater o feminismo. Pode ser contra cotas raciais, divergir das políticas de identidade de gênero, questionar projetos da esquerda e defender concepções tradicionais sobre família e sociedade. Algumas dessas posições estão explicitamente presentes em sua plataforma política.

Numa democracia, pensamentos diferentes não são tolerados por favor. São protegidos por princípio. A questão começa quando a divergência deixa de enfrentar ideias e passa a atingir a dignidade das pessoas ou de grupos sociais.

E aqui direita e esquerda deveriam aceitar a mesma régua. Não pode existir liberdade de expressão para os meus e censura para os outros. Tampouco podemos transformar toda frase desagradável, grosseira ou politicamente incorreta automaticamente em crime. Entre esses dois extremos existe a civilização democrática.

Talvez esse episódio seja particularmente simbólico porque envolve duas mulheres que receberam votações extraordinárias. Campopiano teve quase dois milhões de votos para a Assembleia paulista; Erika Hilton recebeu cerca de 1,5 milhão e tornou-se a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados.

São duas expressões de um Brasil profundamente dividido. Uma representa uma direita jovem, conservadora, combativa e formada em grande medida nas redes sociais. A outra tornou-se uma das principais representantes das pautas progressistas e dos direitos da população LGBT. As urnas deram voz às duas. Talvez esteja justamente aí a beleza e a dificuldade da democracia.

Democracia não é viver somente entre aqueles que concordam conosco. É estabelecer regras pelas quais pessoas que discordam profundamente possam continuar vivendo na mesma sociedade. Por isso, não chamaria as denúncias simplesmente de inveja.

Há fatos concretos que justificam sua investigação. Também não condenaria antecipadamente Eduarda Campopiano. Deixemos ao Ministério Público e, eventualmente, à Justiça aquilo que pertence ao Ministério Público e à Justiça. A nós cabe outra reflexão.

Eduarda Campopiano recebeu uma votação gigantesca. Isso lhe confere enorme legitimidade política, mas também lhe impõe enorme responsabilidade.

Lembremos que existe uma diferença entre ter coragem para dizer o que pensa e imaginar que se pode dizer qualquer coisa. A primeira qualidade fortalece a democracia. A segunda pode destruí-la.

Talvez seja justamente esta uma das lições que as urnas de 2026 estão deixando: o Brasil deseja vozes fortes, à direita e à esquerda. Mas a força política não deveria ser medida pela capacidade de ferir o adversário. Deveria ser medida pela capacidade de enfrentá-lo, sem deixar de reconhecê-lo como ser humano.

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