Brasília, 15/09/2026

Pacto separatista coloca em discussão o futuro do Reino Unido

A unidade do Reino Unido voltou ao centro do debate político depois que os principais partidos nacionalistas da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte assinaram um acordo de cooperação em defesa da autodeterminação e de mudanças na estrutura constitucional britânica.

O memorando foi firmado na segunda-feira (14), em Cardiff, capital galesa, pelos líderes do Partido Nacional Escocês (SNP), do Plaid Cymru e do Sinn Féin. Participaram do encontro John Swinney, Rhun ap Iorwerth, Michelle O’Neill e Mary Lou McDonald.

Embora Swinney, Iorwerth e O’Neill comandem os governos regionais, eles participaram da reunião na condição de dirigentes partidários, e não como representantes formais das administrações locais, segundo a Al Jazeera.

Essa distinção é importante principalmente na Irlanda do Norte, onde o governo funciona por meio de uma divisão obrigatória de poder entre nacionalistas e unionistas. A vice-primeira-ministra Emma Little-Pengelly, do Partido Democrático Unionista, acusou Michelle O’Neill de explorar politicamente o cargo para defender a saída do Reino Unido.

O acordo sustenta que Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte têm o direito de decidir o próprio futuro e afirma que nenhum governo instalado em Londres pode impedir indefinidamente a realização de consultas populares.

Os partidos também defendem maior aproximação com a União Europeia. O Brexit é um dos principais combustíveis da insatisfação, especialmente na Escócia e na Irlanda do Norte, onde a maioria dos eleitores votou pela permanência no bloco europeu no referendo de 2016.

De acordo com a Sky News, o memorando prevê cooperação em áreas como energia renovável, desenvolvimento econômico, relações com a Europa e defesa do direito de cada nação determinar seu futuro.

John Swinney classificou o encontro como um momento decisivo da trajetória constitucional britânica. Para o líder escocês, a concentração das decisões em Westminster deixou de corresponder às aspirações das outras nações que compõem o Reino Unido.

O primeiro-ministro do País de Gales, Rhun ap Iorwerth, adotou um discurso mais cauteloso. Em entrevista à Sky News, afirmou que seu objetivo não é simplesmente “desmembrar” o Reino Unido, mas dar aos galeses os instrumentos necessários para construir seu próprio futuro.

Essa diferença de tom revela uma das limitações do acordo. Os três partidos defendem a autodeterminação, mas atuam em ambientes políticos distintos e não possuem um calendário comum para a separação.

O Financial Times observou que a Irlanda do Norte possui um caminho jurídico definido para decidir sobre a reunificação com a República da Irlanda, enquanto Escócia e País de Gales dependem de autorização do Parlamento britânico.

Escócia concentra maior pressão

A Escócia continua sendo o ponto mais sensível para Londres. O país realizou em 2014 um referendo de independência autorizado pelo governo britânico. A permanência no Reino Unido venceu por 55% a 45%, com participação de 84,6% dos eleitores.

Depois do Brexit, o SNP passou a defender uma segunda consulta. O argumento é que a situação constitucional mudou substancialmente porque 62% dos escoceses haviam votado pela permanência na União Europeia.

Swinney pretende realizar um novo referendo até 2031. O governo britânico, entretanto, rejeita a proposta e sustenta que a decisão tomada em 2014 deve ser respeitada.

O principal obstáculo é jurídico. Em 2022, a Suprema Corte concluiu que o Parlamento escocês não tem competência para convocar unilateralmente um referendo sobre a separação.

Um estudo atualizado da Biblioteca da Câmara dos Comuns confirma que uma nova votação dependeria da transferência de poderes por Westminster, como ocorreu antes do plebiscito de 2014.

O Financial Times avalia que, apesar da mobilização do SNP, o apoio à independência escocesa continua dividido e ainda não apresenta uma maioria ampla e duradoura capaz de obrigar Londres a recuar.

Irlanda do Norte tem regra diferente

Na Irlanda do Norte, a discussão não envolve a criação de um novo país, mas a reunificação com a República da Irlanda.

O Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998, prevê que o governo britânico deverá convocar uma consulta quando considerar provável a existência de uma maioria favorável à união das duas Irlandas.

Michelle O’Neill defendeu a realização dessa votação até 2030 e pediu aos governos britânico e irlandês que iniciem os preparativos políticos e administrativos.

A questão voltou a ganhar força depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio à reunificação irlandesa. A manifestação foi recebida com entusiasmo pelo Sinn Féin, mas provocou forte reação dos unionistas norte-irlandeses.

O primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, procurou reduzir a tensão e afirmou que qualquer mudança precisa ocorrer de maneira democrática, pacífica e nos termos do acordo de 1998.

Independência tem menos força em Gales

No País de Gales, o nacionalismo avançou politicamente, mas a independência ainda encontra apoio menor do que na Escócia.

Levantamentos mencionados pela Al Jazeera indicam aproximadamente 32% de apoio à separação galesa. Na Escócia, o índice chega a 47%, enquanto uma pesquisa na Irlanda do Norte apontou 36% em favor da reunificação.

Rhun ap Iorwerth não estabeleceu prazo para um referendo. Seu discurso concentra-se na ampliação da autonomia, na revisão do financiamento recebido de Londres e na demonstração de que um governo galês pode administrar o país com maior eficiência.

A Exame ressaltou que o acordo de Cardiff representa uma cooperação inédita entre as três forças políticas, mas não elimina as diferenças sobre o ritmo e a forma de uma eventual separação.

Londres rejeita novos referendos

O governo do primeiro-ministro Andy Burnham reagiu afirmando que a prioridade das administrações regionais deveria ser o custo de vida, os serviços públicos e a recuperação econômica, e não a realização de novos referendos.

Segundo a Sky News, Downing Street reafirmou que Burnham acredita na continuidade da união entre as quatro nações e considera novas consultas constitucionais fora da agenda imediata.

A oposição unionista também acusa os nacionalistas de utilizar o debate sobre independência para desviar a atenção de dificuldades internas nas áreas de saúde, educação e economia.

A Folha de S.Paulo destacou que o movimento ocorre em um ambiente de instabilidade política agravado pelo Brexit e pelas sucessivas trocas de comando no governo britânico.

O pacto não significa que a separação esteja próxima. Escócia e País de Gales não podem deixar o Reino Unido por decisão unilateral, e um referendo na Irlanda do Norte depende de condições políticas previstas no acordo de paz.

Seu peso é sobretudo político. Pela primeira vez, os partidos que comandam Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte apresentam uma frente comum para questionar o poder de Westminster.

O Reino Unido não está diante de uma ruptura imediata, mas enfrenta um problema de longo prazo: manter a união dependerá cada vez menos da tradição e cada vez mais da capacidade de Londres convencer escoceses, galeses e norte-irlandeses de que permanecer juntos ainda oferece mais vantagens do que seguir caminhos separados.

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