A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) uma operação para investigar o possível desvio de recursos de emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), autor do roteiro do filme, e a produtora Karina Gama.
Segundo a CNN Brasil, 49 mandados de busca e apreensão são cumpridos no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. A Operação Make Up foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e conta com a participação da Controladoria-Geral da União.
A investigação apura a atuação de uma suposta organização criminosa formada por agentes públicos e privados. De acordo com a PF, entidades da sociedade civil teriam recebido recursos públicos e direcionado parte do dinheiro para empresas subcontratadas irregularmente, sem comprovação de que os serviços previstos nos contratos foram efetivamente prestados.
Os levantamentos financeiros identificaram movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas e organizações incluídas na investigação. Os crimes apurados são peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações.
Mario Frias foi secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro e participa da produção de “Dark Horse”. Karina Gama é dona da Go Up Entertainment, responsável pela realização do filme no Brasil, e está ligada ao Instituto Conhecer Brasil, entidade beneficiada por emendas apresentadas pelo deputado.
Em 2024, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao instituto. Os recursos foram oficialmente reservados para projetos sociais e de capacitação, mas a proximidade entre a entidade beneficiada e a produção cinematográfica levou a CGU e a PF a examinarem o destino do dinheiro.
Em março deste ano, Flávio Dino determinou que o parlamentar explicasse as emendas e apresentasse informações sobre a aplicação dos recursos. Em manifestação encaminhada ao STF em maio, Frias negou qualquer irregularidade e afirmou que o dinheiro teve finalidade social, sem relação com o financiamento do longa.
As buscas desta quinta-feira representam um novo estágio da investigação: os agentes procuram documentos, equipamentos eletrônicos, contratos e registros bancários capazes de mostrar o caminho percorrido pelas verbas públicas.
A CNN informou que procurou Mario Frias e Karina Gama, mas ainda aguardava resposta. A realização das buscas não significa que os investigados tenham sido considerados culpados.
Frentes de investigação
O financiamento de “Dark Horse” está sendo examinado em dois inquéritos distintos no Supremo.
O processo conduzido por Flávio Dino trata principalmente da suspeita de utilização ou desvio de emendas parlamentares por meio de organizações da sociedade civil. É nessa investigação que foi realizada a Operação Make Up.
O outro inquérito, sob a relatoria de André Mendonça, apura a origem e o destino dos recursos privados enviados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para a produção do filme.
Embora as investigações tenham pontos de contato — especialmente a produtora e as pessoas envolvidas no longa —, não se trata, até o momento, de um único caso. Uma frente acompanha dinheiro público proveniente de emendas; a outra procura esclarecer transferências privadas e internacionais ligadas a Vorcaro.
Histórico
As primeiras suspeitas ganharam dimensão nacional em maio, depois da divulgação de mensagens e áudios nos quais o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia a Vorcaro recursos para viabilizar a cinebiografia de seu pai.
Segundo reportagens de veículos brasileiros e estrangeiros, a negociação teria envolvido um financiamento total de até R$ 134 milhões. Flávio reconheceu ter procurado o banqueiro, mas sustentou que se tratava de uma operação privada e legal, sem contrapartida política nem utilização de recursos públicos. O episódio também foi noticiado pela Associated Press e pelo The Guardian.
Posteriormente, documentos financeiros revelados pela revista piauí indicaram que Vorcaro havia enviado pelo menos US$ 12,3 milhões — cerca de R$ 63,7 milhões nas cotações das transferências — ao Havengate Development Fund, fundo localizado no exterior e relacionado ao financiamento do filme.
Um dos depósitos, de US$ 1,6 milhão, foi realizado em setembro de 2025, depois da data que Flávio Bolsonaro havia apontado como o encerramento dos repasses. A Go Up afirmou que todas as transferências foram declaradas à Justiça e empregadas exclusivamente na produção cinematográfica, conforme informou a Folha de S.Paulo.
O caso avançou novamente nesta semana, quando André Mendonça homologou a colaboração premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro” e apontado como operador financeiro de Vorcaro.
Freixo declarou ter realizado, por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, transferências de aproximadamente R$ 61 milhões ao fundo ligado a “Dark Horse”. Segundo as informações divulgadas, os pagamentos teriam sido feitos a pedido de Vorcaro após solicitações de Flávio Bolsonaro. A delação ainda precisará ser confirmada por provas independentes durante a investigação.
Agora, a Operação Make Up acrescenta uma nova dimensão ao caso ao colocar sob investigação direta as emendas destinadas por Mario Frias a uma entidade ligada à produtora. O objetivo da PF é saber se os projetos sociais foram realmente executados e se parte dos recursos públicos terminou em empresas relacionadas, direta ou indiretamente, à produção do filme.
Assim, “Dark Horse” passou a ocupar o centro de duas apurações simultâneas no STF: uma sobre dezenas de milhões de reais enviados por Vorcaro ao exterior e outra sobre a possível utilização irregular de verbas parlamentares. Até o momento, os investigados negam ilegalidades, e não há decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade de nenhum dos envolvidos.

