Brasília, 08/10/2026

Promessa de Flávio de “redemocratizar” o Brasil provoca reação

A promessa de Flávio Bolsonaro (PL) de mudar a Constituição e “redemocratizar” o Brasil abriu uma nova controvérsia na disputa presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em reportagem do The Guardian, políticos de oposição, historiadores e cientistas políticos afirmam que a declaração pode sinalizar uma tentativa de enfraquecer as instituições democráticas por dentro.

Flávio fez a afirmação na terça-feira, durante um evento de campanha em Goiânia, ao defender o uso da força conquistada pela direita no Congresso para promover mudanças constitucionais. Segundo o jornal britânico, o candidato não detalhou quais alterações pretende realizar nem explicou o significado de “redemocratizar” um país que já realiza eleições competitivas e multipartidárias.

“A única coisa que impede o Brasil de se tornar uma barbárie é Flávio Bolsonaro como presidente”, declarou no encontro, que reuniu o ex-candidato presidencial Ronaldo Caiado e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

A expressão provocou reação imediata. A deputada Talíria Petrone classificou a fala como anúncio de um golpe. Marcelo Freixo, apresentado pela reportagem como deputado eleito pelo PT, lembrou a Constituição de 1988 e a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de ruptura institucional.

O ponto central da reportagem é a possibilidade de um governo Flávio utilizar sua sustentação parlamentar para alterar o equilíbrio entre os Poderes. O Guardian informa que o PL conquistou a maior bancada do Senado, com 28 das 81 cadeiras. Esse número representa pouco mais de um terço da Casa e, sozinho, não constitui maioria.

Na avaliação do cientista político Miguel Lago, a expansão do bolsonarismo no Congresso ampliaria a capacidade de pressionar o Supremo Tribunal Federal e buscar o impeachment de ministros considerados adversários. A reportagem também apresenta como possibilidade uma articulação para libertar Jair Bolsonaro e outros condenados. Essas hipóteses são projeções dos entrevistados, não medidas já concretizadas.

Em coluna de O Globo citada pelo Guardian, a jornalista Míriam Leitão argumenta que Flávio poderia dispor de instrumentos mais poderosos do que os utilizados pelo pai: bancadas expressivas nas duas Casas, pressão sobre o STF e apoio do governo Donald Trump. Para ela, o risco seria o aprofundamento do projeto autoritário atribuído ao ex-presidente.

O cientista político Celso Rocha de Barros identifica uma diferença de método. Enquanto Jair Bolsonaro demonstrava simpatia por uma intervenção militar, o filho poderia buscar mudanças graduais nas próprias instituições, usando instrumentos legais para concentrar poder e reduzir os mecanismos de controle.
Barros compara esse processo aos modelos de Viktor Orbán, na Hungria, e Nayib Bukele, em El Salvador. Sua avaliação é que a linguagem da democracia pode servir para apresentar como legítimas medidas que, cumulativamente, enfraquecem o pluralismo e a fiscalização do governo.

A aproximação de Flávio com o governo salvadorenho também recebe destaque. Segundo o Guardian, o candidato encontrou em São Paulo o ministro da Segurança de Bukele, Gustavo Villatoro, e elogiou sua política de combate ao crime. Flávio relatou que o ministro ressaltou a importância do controle do Congresso para realizar mudanças legais.

O historiador Danilo Araújo Marques, ligado ao Projeto República da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra que os responsáveis pelo golpe de 1964 também recorreram ao discurso de defesa da democracia. Para ele, é necessário examinar o conteúdo das propostas, além das palavras usadas para justificá-las.

Flávio rejeitou a interpretação de que pretende completar uma tentativa de ruptura iniciada pelo pai. Questionado na quarta-feira, acusou os críticos de mentir e afirmou: “O Brasil precisa voltar ao normal, só isso”.

A reportagem deixa como questão central quais mudanças o candidato pretende promover. Seus críticos enxergam risco de concentração de poder; Flávio nega intenção autoritária, mas, conforme o texto, ainda não esclareceu o alcance de sua proposta de “redemocratização”.

Tags

Gostou? Compartilhe!