Brasília, 05/11/2026

Quebra de banco derruba Peña e deixa 3 milhões sem dinheiro no Paraguai

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), pressionado pela crise do Ueno Bank, instituição financeira com a qual manteve vínculos empresariais. A intervenção deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às contas e transformou o colapso bancário em uma crise política, com manifestações e perda de apoio dentro do próprio governo.

Mesmo após o anúncio, a Câmara dos Deputados aprovou por 78 votos a zero a abertura do processo de impeachment. Segundo a Associated Press, a acusação seguiu ao Senado, responsável pelo julgamento. A formalização da saída de Peña e a transferência do cargo ao vice-presidente Pedro Alliana ainda dependiam dos procedimentos no Congresso, conforme as informações disponíveis nesta quinta-feira.  

A dimensão do problema vai além das contas particulares. De acordo com a Reuters, o Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos. A presença desse dinheiro no banco ampliou as cobranças sobre o governo e colocou sob questionamento a fiscalização exercida pelas autoridades financeiras.

Peña negou irregularidades relacionadas aos seus antigos vínculos empresariais. Ao anunciar a decisão, afirmou que buscava preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas. Também defendeu a proteção dos recursos públicos e a devolução do dinheiro aos depositantes.

A origem da crise

O Banco Central do Paraguai assumiu o controle do Ueno na terça-feira (3), depois de identificar uma grave insuficiência de capital. Segundo a Associated Press, o índice de solvência — que mede a capacidade de absorver perdas — havia caído para menos da metade do mínimo legal.

A instituição informou que atendia aproximadamente 3 milhões de clientes. A suspensão das operações impediu saques, transferências e pagamentos, afetando famílias que utilizavam as contas para movimentar salários, aposentadorias e economias.

O fundo garantidor cobre depósitos até determinado limite. Estimativas preliminares divulgadas pelas autoridades indicavam proteção integral para aproximadamente 97% dos depositantes, mas clientes com valores superiores permaneciam sujeitos a incertezas sobre a recuperação do excedente.

A revolta nas ruas

O bloqueio do dinheiro levou aposentados, trabalhadores, estudantes e correntistas às ruas de Assunção. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, as manifestações reuniram cidadãos e integrantes da Associação de Segurados do Instituto de Previdência Social, com cobranças pela devolução dos depósitos e pela responsabilização dos envolvidos.

Na quarta-feira (4), os protestos se concentraram na região do Panteão dos Heróis, no centro da capital. Cartazes exigiam o afastamento de Peña e de Alliana, mostrando que a insatisfação já ultrapassava a administração do banco e alcançava o comando político do país.

A pressão também atingiu o Banco Central. Carlos Carvallo, que havia presidido a instituição antecessora do Ueno antes de assumir a autoridade monetária, deixou o cargo a pedido de Peña. A trajetória do dirigente tornou-se um dos principais pontos de questionamento sobre a independência da supervisão bancária.

Segundo a agência France-Presse, foram expedidas ordens de prisão contra oito dirigentes do banco. A oposição reuniu inicialmente 35 assinaturas para pedir o afastamento presidencial, sob acusações de mau desempenho e conflito de interesses. Essas acusações integram a disputa política e as investigações, sem representar uma condenação judicial.

Na tentativa de reduzir a tensão, Peña promulgou uma lei para acelerar a liberação de recursos do fundo garantidor. A medida buscava colocar parte do dinheiro novamente nas mãos dos correntistas, mas não conteve a pressão por sua saída.

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