Ulrich Siegmund, de 35 anos, tornou-se uma das figuras mais importantes da extrema direita alemã ao conduzir a Alternativa para a Alemanha (AfD) a uma vitória histórica na Saxônia-Anhalt. Com uma imagem jovem, sorridente e popular nas redes sociais, ele conseguiu transformar uma campanha regional em fenômeno político com repercussão nacional.
Em perfil publicado pelo jornal francês Le Monde, a jornalista Elsa Conesa descreve um candidato tratado como celebridade pelos apoiadores. Centenas de pessoas enfrentavam longas filas para abraçá-lo, tirar fotografias e conseguir autógrafos em camisetas, capas de celular e exemplares de revistas.
Siegmund soube aproveitar até mesmo os ataques recebidos. Depois de ser chamado pela revista Der Spiegel de “o homem mais perigoso da Alemanha”, transformou a capa em instrumento de propaganda. Exemplares autografados chegaram a ser vendidos por mais de mil euros na internet.
Apelidado de “Ulli”, ele evita apresentar-se como um político agressivo. Cumprimenta os eleitores individualmente, faz brincadeiras, grava vídeos personalizados e procura conhecer detalhes sobre cada pessoa. Sua habilidade comercial é uma característica marcante: antes de entrar profissionalmente na política, trabalhou com a venda de aromatizadores de ambiente.
Nascido em 1990, apenas três semanas depois da reunificação alemã, Siegmund cresceu em uma pequena cidade da Saxônia-Anhalt. Estudou marketing e criou uma empresa em Berlim. Aos 18 anos, ingressou na União Democrata-Cristã (CDU), mas deixou o partido e aderiu à AfD em 2014, pouco depois da criação da legenda.
Sua ascensão está fortemente associada às redes sociais. A campanha foi construída com transmissões ao vivo, vídeos curtos no TikTok e aparições cuidadosamente organizadas. Durante o verão, ele percorreu cidades em motocicletas Simson, símbolo da antiga Alemanha Oriental, explorando a memória afetiva e o sentimento de identidade regional.
O estilo descontraído contrasta, entretanto, com a radicalidade de seu programa. A seção da AfD na Saxônia-Anhalt foi classificada pelos serviços de inteligência locais como uma organização extremista de direita e permanece sob vigilância reforçada desde 2023.
Entre as propostas estão a aceleração das deportações, a imposição de trabalhos comunitários a solicitantes de asilo e a criação de classes separadas para filhos de refugiados. O programa também defende que as escolas apresentem como modelo familiar a união entre homem e mulher e priorizem a educação nacionalista.
A AfD pretende ainda reduzir progressivamente o financiamento público da televisão, eliminar recursos destinados a organizações de educação política e interromper programas de combate às mudanças climáticas. Também propõe estimular o ensino doméstico, retomar o aprendizado do idioma russo, ampliar intercâmbios com a Rússia e criar uma espécie de milícia civil voluntária.
No campo cultural, o partido quer valorizar a história nacionalista da Saxônia-Anhalt e reduzir a importância atribuída ao movimento Bauhaus, nascido na região e reconhecido internacionalmente. Igrejas consideradas progressistas também estão na mira da legenda.
Siegmund participou, em novembro de 2023, de uma reunião informal em Potsdam na qual foi discutido um projeto de expulsão em massa de estrangeiros e até de alemães de origem estrangeira. O Le Monde destaca ainda que alguns de seus assessores tiveram participação em movimentos neonazistas e poderiam integrar uma futura administração regional.
O político também enfrentou acusações de nepotismo depois de a emissora ZDF revelar que seu pai trabalhava para um deputado da AfD no Parlamento federal e recebia mais de 7,5 mil euros mensais. A denúncia, porém, aparentemente não prejudicou sua popularidade.
A principal força de Siegmund está justamente na separação entre forma e conteúdo. Enquanto o programa da AfD apresenta algumas das propostas mais extremistas da Alemanha, o candidato procura transmiti-las com simpatia, humor e linguagem acessível. Nos eventos, fala pouco sobre as medidas concretas e concentra-se na construção de proximidade emocional com os eleitores.
Adversários o definem como um político radical disfarçado por uma imagem moderada. O perigo, segundo seus críticos, está na capacidade de tornar aceitáveis propostas anteriormente restritas às franjas extremistas da sociedade alemã.
O perfil traçado pelo Le Monde mostra que Siegmund representa uma nova geração da extrema direita europeia: menos marcada pela aparência agressiva dos movimentos extremistas tradicionais e mais adaptada às técnicas de marketing, ao culto da personalidade e às redes sociais.
Sua vitória na Saxônia-Anhalt não decorreu apenas do descontentamento econômico ou da rejeição à imigração. Foi também resultado de uma campanha capaz de transformar um programa radical em espetáculo popular, familiar e aparentemente inofensivo. É essa combinação de carisma, comunicação digital e nacionalismo extremo que faz de Ulrich Siegmund uma figura temida em Berlim e observada com preocupação no restante da Europa.

