Luiz Carlos Bordoni
O Brasil parece ter entrado numa época em que muita gente tem certezas demais e perguntas de menos. Nunca tivemos tanta informação ao alcance das mãos e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil transformar informação em instrumento de manipulação.
Nas redes sociais, nas conversas familiares e, principalmente, na política, multiplicam-se pessoas que abraçam ideias, movimentos e palavras de ordem sem conhecer exatamente aquilo que estão defendendo.
Não estudam a tese. Não procuram a origem. Não confrontam versões. Não perguntam quem ganha com determinada narrativa. Simplesmente acreditam e, depois que acreditam, passam a defender.
É assim que cidadãos podem transformar-se em massa de manobra. São os velhos “inocentes úteis”: muitas vezes bem-intencionados, mas utilizados por interesses que desconhecem.
O problema se torna ainda mais grave quando observamos o momento brasileiro. Estamos em pleno processo eleitoral de 2026. Deveríamos estar discutindo profundamente o Brasil que desejamos construir para os próximos dez, vinte ou trinta anos.
Que país queremos entregar aos nossos filhos e netos? Como enfrentar uma transformação tecnológica que está mudando profissões, empresas e relações de trabalho? Que educação preparará nossas crianças para esse mundo? Como financiar saúde, Previdência e políticas sociais numa sociedade que envelhece?
Mais: como enfrentar a violência e o crime organizado? Como aumentar produtividade, gerar riqueza, reduzir desigualdades e preservar o meio ambiente? Como reformar um Estado caro, complexo e frequentemente ineficiente?
Essas deveriam ser algumas das grandes perguntas nacionais. Existem propostas nos programas dos candidatos e diferenças importantes entre elas, mas boa parte da conversa pública parece acontecer em outro terreno.
O debate eleitoral tem sido constantemente atravessado por denúncias, suspeitas, acusações, investigações e pela crise que alcançou também o Judiciário. O Supremo Tribunal Federal vive um período de forte desgaste institucional, enquanto o Congresso mantém seus próprios conflitos em torno de orçamento, prerrogativas e relações com os demais Poderes.
Com esse cenário, excluímos a razão e vamos transformando a eleição numa disputa em que, demasiadas vezes, parece importar mais destruir o adversário do que explicar o futuro ou até imaginá-lo. Triste dizer isso: a política corre o risco de deixar de ser a arte de construir caminhos para virar simplesmente a luta do poder pelo poder.
Nesse ambiente, floresce o radicalismo. Para o radical, pouco importa discutir o que seu candidato propõe. Importa derrotar o outro. Pouco importa examinar criticamente seu próprio campo político. Importa justificar seus erros porque os erros do adversário seriam maiores.
A lógica deixa de ser: “isto está certo ou errado?” Passa a ser: “quem fez?” Se foi alguém do meu lado, encontro uma explicação. Se foi alguém do outro lado, encontro uma condenação. É a morte do pensamento crítico.
Direita e esquerda possuem ideias legítimas e necessárias ao debate democrático. Conservadores, liberais, social-democratas, socialistas e outras correntes têm contribuições históricas, acertos e erros que podem e devem ser discutidos. O problema começa quando ideologia vira religião política e o candidato se transforma em objeto de devoção.
Democracia não precisa de fiéis. Precisa de cidadãos. O cidadão pergunta. O cidadão desconfia. O cidadão compara. O cidadão cobra inclusive, talvez principalmente, aquele em quem pretende votar.
O fanático faz exatamente o contrário: terceiriza o pensamento. Recebe pronta a interpretação do mundo e passa a reproduzi-la. É nesse momento que surgem as palavras de ordem: “siga”, “acredite”, “não questione”, “repita”.
Pensar dá trabalho. Duvidar incomoda. Reconhecer que o adversário eventualmente tem razão exige maturidade. Admitir que nosso próprio grupo está errado exige ainda mais.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores dificuldades brasileiras. Somos uma nação extraordinariamente rica em recursos naturais, território, água, energia, capacidade agrícola, minerais e talento humano.
Uma pobre rica nação. Pobre não apenas pelas desigualdades que ainda carrega, mas também porque desperdiça enorme parte de sua energia discutindo pessoas quando deveria discutir projetos.
Precisamos perguntar aos candidatos menos sobre o inimigo que pretendem combater e mais sobre o país que pretendem construir. São perguntas fundamentais, indispensáveis e de cujas respostas sairá o nosso voto.
Onde estará o Brasil em 2036? Qual será nossa escola? Qual será nossa indústria? Que empregos existirão? Como será nossa Justiça? Quanto pagaremos de impostos e que serviços receberemos em troca? Que Estado conseguiremos sustentar? Essas perguntas valem mais do que milhares de insultos distribuídos pelas redes sociais.
Há uma frase frequentemente atribuída a Thomas Paine: “Discutir com uma pessoa que renunciou ao uso da razão e da lógica é como medicar um cadáver.” A imagem é dura, mas a advertência permanece atual.
Uma democracia começa a adoecer quando seus cidadãos deixam de pensar e passam apenas a seguir. Quando alguém entrega a outro o direito de pensar por ele, entrega também uma parcela da própria liberdade.
E talvez seja essa a pergunta mais importante desta eleição: estamos escolhendo o futuro do Brasil ou apenas escolhendo de que lado da briga queremos ficar?


