Brasília, 26/06/2026

Vídeo de Michelle pode causar estrago maior que caso ‘Dark Horse’ para Flávio Bolsonaro

O cientista político Thomas Traumann disse nesta quinta-feira (25), durante o programa Estúdio i, da GloboNewsque o vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na noite de quarta-feira (24) pode ter impacto político ainda maior do que o caso “Dark Horse”, que expôs a relação do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraudes. Informações do G1.

Para Traumann, o episódio não é apenas um desgaste pontual para o senador, que agora aparece atrás do presidente Lula (PT) nas pesquisas eleitorais. Ele representa uma disputa direta por protagonismo dentro do bolsonarismo.

“Ele consegue rachar o bolsonarismo onde o movimento é mais essencial, que é justamente o fato de ele ter uma direção única”, afirma.

Segundo o analista, a manifestação pública de Michelle rompe uma característica marcante do grupo político liderado por seu marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro: a unidade em torno de uma liderança.

“Michelle quebra toda a organização que o bolsonarismo trouxe para a política brasileira, e que ele conseguiu sustentar em momentos de crises anteriores”, diz.

Para Traumann, o principal efeito da declaração é abrir espaço para dúvidas sobre Flávio Bolsonaro entre os apoiadores do ex-presidente. “Ela semeia uma dúvida dentro do eleitor bolsonarista a respeito de Flávio, que nenhuma outra pessoa teria a mesma credibilidade para fazer”, afirma.

Liderança entre evangélicos e grito de independência

Octavio Guedes, comentarista da GloboNews e colunista do g1, avalia que Michelle Bolsonaro se consolidou como uma liderança da direita evangélica no país, com grande influência no eleitorado feminino, e fala a partir dessa posição.

Na avaliação de Guedes, a ex-primeira-dama passou a ocupar um espaço próprio em segmentos nos quais os filhos de Bolsonaro não têm a mesma interlocução.

“Ela está falando para as mulheres, está falando para o voto feminino. Ela fala o tempo todo que eles não têm essa interlocução. Ela é a evangélica da família, que é respeitada e tem influência”, diz.

Guedes avalia também que a fala ocorre em um momento de disputa pela herança política do bolsonarismo.

A crise, segundo a avaliação do comentarista, começou a ganhar força quando Michelle foi ao Ceará declarar apoio ao senador Eduardo Girão, do Novo.

Na ocasião, Bolsonaro estava em casa, e aliados ligados aos filhos do ex-presidente insinuaram que Michelle estaria cuidando de articulações políticas em vez de cuidar do marido.

Para Guedes, esse episódio expôs uma disputa sobre o papel de Michelle. Ele avalia que os filhos de Bolsonaro tentavam restringir a atuação dela a uma função simbólica no PL Mulher.

Guedes compara essa tentativa de enquadramento a uma visão tradicional da primeira-dama como figura decorativa, voltada a ações sociais e beneficentes.

Segundo ele, a expectativa dos filhos de Bolsonaro seria que Michelle ajudasse a “arrumar votos”, sem interferir na condução do partido.

O comentarista afirma que a disputa no Ceará tinha relação direta com o projeto político de Michelle, que buscava fortalecer candidaturas próximas a ela, inclusive para formar uma bancada própria.

Guedes avalia que os irmãos Bolsonaro trabalhavam contra candidaturas defendidas pela madrasta porque sabiam que, sem mandatos ligados a ela, Michelle teria menos poder no partido.

“Ela percebeu que havia um cerco a seu projeto de poder, que era formar uma bancada dela, mais dela até do que do PL, de Bolsonaro etc. O Ceará fazia parte desse contexto. O pai dela nasceu lá, então ela tem uma ligação maior com o Ceará”, diz.

“Os filhos de Bolsonaro estavam isolando a Michelle num cargo decorativo, na cabeça deles seria um cargo decorativo, no PL Mulher, e estavam trabalhando contra todas as candidaturas da Michelle. Por isso, esse grito de independência”, afirma.

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