Luiz Carlos Bordoni
Se confirmado o anúncio de Gilberto Kassab como candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, o tabuleiro eleitoral ganhará um novo desenho. Não apenas porque dois dos maiores articuladores da política brasileira estarão na mesma chapa, mas porque o PSD estará dizendo ao país que pretende disputar a Presidência para valer.
Kassab não é um candidato convencional. Dificilmente alguém vai às urnas por causa dele. Sua força está em outro lugar. Está na engenharia política. É o presidente de um partido com enorme presença nacional, influência sobre prefeitos, governadores, parlamentares e dirigentes regionais. Poucos conhecem os bastidores da política brasileira tão profundamente quanto ele.
Em uma campanha presidencial, esse capital pode valer mais do que muitos minutos de televisão. Kassab organiza, costura alianças, reduz resistências e abre portas. Caiado entra com o discurso firme, a experiência administrativa e a vitrine de Goiás. Kassab oferece a musculatura partidária necessária para transformar uma candidatura regional em um projeto nacional.
A composição também produz um efeito simbólico. Enterra, pelo menos por enquanto, as especulações sobre uma chapa liderada por Romeu Zema ou sobre Caiado ocupando posição secundária em outra aliança. O PSD passa a apostar em uma candidatura própria, mostrando que não pretende ser apenas coadjuvante da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Mas a pergunta permanece: isso basta para criar uma terceira via?
Ainda não. Hoje, as pesquisas continuam concentrando a disputa entre Lula e Flávio. Caiado aparece distante dos dois. O desafio da nova chapa será convencer o eleitor de que existe um caminho viável fora da polarização. Isso exige muito mais do que um bom vice. Exige crescimento consistente nas pesquisas, tempo de exposição e, principalmente, convencer o eleitor de que votar em Caiado não será desperdiçar o voto.
Mesmo assim, não se deve subestimar esse movimento. Campanhas presidenciais são construídas em etapas. Primeiro vem a estrutura. Depois, o discurso. Em seguida, a percepção de viabilidade. Kassab ajuda exatamente na primeira delas.
Se essa estrutura conseguir transformar Caiado em um candidato competitivo, a disputa presidencial deixará de ser um duelo e passará a ser uma corrida de três. É cedo para afirmar que nasceu uma terceira via. Mas é perfeitamente possível dizer que acaba de surgir a primeira tentativa realmente organizada de construí-la.


