O candidato do partido Missão à Presidência da República, Renan Santos mostrou segurança, clareza e capacidade de comunicação durante a entrevista à TV Globo. Ao mesmo tempo, defendeu propostas de difícil execução, minimizou denúncias de violações de direitos humanos e deixou dúvidas sobre seu compromisso com os limites constitucionais impostos ao presidente da República.
Entrevistado por Renata Vasconcellos e César Tralli, Renan adotou uma postura mais formal do que a apresentada no debate da Band. Na ocasião anterior, havia recorrido a ofensas, provocações e até fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. Na Globo, abandonou o espetáculo e procurou apresentar-se como candidato preparado para discutir o país.
Esse foi um de seus bons momentos. Renan demonstrou habilidade para responder rapidamente, sustentou suas posições mesmo diante de perguntas críticas e deixou claro o eleitorado que pretende representar. Em vez de tentar parecer uma versão moderada de seus adversários, assumiu uma candidatura de confronto com o atual sistema político.
Também foi eficiente ao apresentar-se como alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. Renan procura conquistar eleitores de direita que não desejam votar no PT, mas que também estão insatisfeitos com o bolsonarismo. Politicamente, essa diferenciação é necessária para um candidato com pouco tempo de propaganda e reduzida estrutura partidária.
Outro ponto legítimo foi a defesa do sigilo das fontes jornalísticas. Ao criticar uma decisão atribuída ao ministro Alexandre de Moraes, Renan levantou uma discussão importante sobre liberdade de imprensa e os limites da atuação judicial. O sigilo da fonte é uma garantia prevista na Constituição e merece proteção.
O problema surgiu na solução apresentada. Renan afirmou que não cumpriria decisões do Supremo Tribunal Federal que considerasse ilegais. Ao fazer isso, transformou uma crítica legítima em uma proposta institucionalmente perigosa.
Um presidente pode contestar decisões do STF, apresentar recursos e mobilizar politicamente o Congresso. O que não pode é escolher unilateralmente quais ordens judiciais serão obedecidas. Se cada Poder decidir sozinho o que considera legal, o resultado será um conflito institucional permanente.
Segurança
Na segurança pública, Renan identificou corretamente uma das maiores angústias da população: a perda de territórios para organizações criminosas. Também acertou ao afirmar que o Estado não pode aceitar comunidades submetidas às regras de facções e milícias.
Sua promessa de recuperar essas áreas no primeiro ano de governo possui forte apelo popular. Entretanto, ele não explicou como coordenaria as polícias estaduais, as Forças Armadas, a Polícia Federal, o sistema penitenciário e os governos locais para alcançar esse objetivo.
Foi nesse tema que ocorreu um dos piores momentos da entrevista. Renan apresentou o governo de Nayib Bukele, em El Salvador, como referência para o Brasil e minimizou denúncias de torturas, prisões arbitrárias, desaparecimentos e mortes sob custódia.
As diferenças entre os dois países tornam qualquer comparação direta extremamente frágil. El Salvador tem praticamente o tamanho de Sergipe. Somente dentro da Amazônia Legal caberiam 238 países com as dimensões do território salvadorenho.
Além da escala, a estrutura criminosa brasileira é muito mais dispersa. Facções como PCC e Comando Vermelho atuam em presídios, portos, fronteiras, bairros urbanos, garimpos, empresas e redes internacionais de tráfico e lavagem de dinheiro.
Renan pode defender o uso da força contra criminosos armados e estudar aspectos da experiência salvadorenha. O equívoco está em apresentar o modelo Bukele como solução nacional sem explicar como evitar abusos, proteger inocentes e respeitar as garantias constitucionais.
A defesa de que “a polícia tem que atirar para matar” também produz uma mensagem perigosa. Policiais possuem o direito de reagir diante de uma ameaça concreta, mas não recebem do Estado autorização para executar suspeitos. A diferença entre confronto e execução não pode ser apagada pelo discurso eleitoral.
Bomba atômica
A proposta de desenvolver uma bomba atômica foi o momento de maior repercussão e menor consistência prática. Renan argumentou que o armamento aumentaria a soberania brasileira e daria ao país mais força nas negociações internacionais.
O candidato teve o mérito de reconhecer que o projeto não seria imediato e precisaria ser desenvolvido no médio ou longo prazo. A discussão sobre defesa nacional, autonomia tecnológica e capacidade militar brasileira é legítima e costuma receber pouca atenção nas campanhas presidenciais.
Mas Renan saltou dessa discussão necessária para uma conclusão extrema. A Constituição estabelece que as atividades nucleares brasileiras devem ter finalidade pacífica. O país também é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.
Para executar a proposta, seria necessário alterar a Constituição, obter apoio do Congresso, abandonar compromissos internacionais e enfrentar possíveis sanções econômicas e tecnológicas. Renan não apresentou estimativas de custo nem avaliou as consequências diplomáticas do projeto.
Também foi infeliz ao afirmar que não seria necessário um estudo científico para decidir se o Brasil deveria possuir uma arma nuclear. Uma iniciativa dessa dimensão exige análises militares, econômicas, científicas, ambientais e diplomáticas. Não pode ser tratada apenas como demonstração de vontade política.
Ao responder sobre Arthur do Val, ex-deputado cassado após declarações ofensivas contra mulheres ucranianas, Renan reconheceu que as falas foram inadequadas, mas tentou atenuá-las porque ocorreram numa conversa privada.
A resposta revelou dois pesos. O candidato mostrou-se implacável ao julgar adversários e instituições, mas adotou uma postura mais tolerante diante da conduta de um aliado político.
Saldo
No saldo da entrevista, Renan apresentou personalidade, domínio de palco e uma identidade eleitoral reconhecível. São qualidades importantes para quem precisa romper a barreira do desconhecimento e disputar espaço com candidatos mais conhecidos.
Seus melhores momentos ocorreram quando apontou problemas reais: o domínio territorial das facções, a necessidade de proteger a liberdade de imprensa, a fraqueza da defesa nacional e o desgaste da polarização política.
Os piores surgiram nas soluções propostas. A desobediência ao STF, a importação do modelo Bukele, a retórica de força letal e a bomba atômica representam respostas extremas, algumas incompatíveis com a ordem constitucional.
Renan mostrou que sabe produzir manchetes e ocupar o debate. Ainda precisa demonstrar que suas propostas podem sair do campo da provocação e transformar-se em políticas públicas viáveis, financiáveis e democráticas.

