A mudança na estratégia de Lula nas redes sociais e a mobilização de milhões de apoiadores estão entre os fatores que explicam sua vitória sobre Flávio Bolsonaro, segundo reportagem de Tiago Rogero no jornal britânico The Guardian. Após terminar o primeiro turno atrás do adversário, o presidente passou a gravar vídeos mais informais e ganhou o apoio de uma rede organizada para ampliar o alcance de suas mensagens.
O principal instrumento dessa mobilização foi o canal de WhatsApp “Exército de Lula”, liderado pelo deputado André Janones. Segundo a reportagem, o número de seguidores saltou de cerca de 60 mil depois do primeiro turno para quase 11 milhões nos dias anteriores à votação. Os participantes recebiam tarefas diárias para conquistar eleitores, compartilhar publicações e estimular o engajamento nas plataformas.
Embora Lula tivesse mais seguidores, os conteúdos de Flávio Bolsonaro chegavam a registrar cinco vezes mais interações. A resposta de Janones foi incentivar a participação direta dos eleitores na circulação de mensagens favoráveis ao presidente. O canal, que não era criado nem administrado pela campanha oficial, tornou-se um dos motores dessa reação.
Uma das ações de maior repercussão convocou apoiadores a publicar fotos com a camisa amarela da seleção brasileira e o sinal de “L”. A iniciativa buscava recuperar um símbolo nacional associado ao bolsonarismo e reforçar a identificação entre os participantes da mobilização.
Para a pesquisadora Raquel Recuero, da Universidade Federal de Pelotas, uma das principais conquistas da rede foi oferecer aos eleitores um sentimento de pertencimento e tarefas concretas para ajudar seu candidato. Janones afirmou que pretendia mostrar aos apoiadores que eles não estavam sozinhos.
A reportagem também destaca a participação de jovens políticos na reformulação da comunicação de Lula. Ana Elisa Santos, de 21 anos, eleita deputada por Minas Gerais, defendeu que a esquerda aprendesse a atuar nas plataformas e teria ajudado a convencer o presidente a gravar vídeos no estilo selfie. Lula, que costumava recorrer aos aparelhos dos assessores, ganhou seu primeiro smartphone quatro dias antes do segundo turno.
O Guardian ressalta que a vitória por mais de 4,4 milhões de votos teve outras explicações, entre elas a mobilização estudantil e medidas de benefícios anunciadas pelo governo. A atuação digital aparece como parte desse conjunto, embora Janones atribua ao “exército” um papel determinante no resultado.
Depois da eleição, o desafio será preservar a mobilização. Recuero considera difícil sustentar a intensidade da campanha, enquanto Janones pretende acionar a rede em momentos decisivos, como votações de projetos do governo. Diante do avanço do partido de Bolsonaro no Congresso, o deputado aposta na pressão digital como instrumento de apoio à governabilidade.


