Luiz Carlos Bordoni
Nunca se serviu tanta sopa de números ao eleitor brasileiro. A quatro dias do segundo turno presidencial, os institutos de pesquisa disputam espaço no noticiário, oferecendo percentuais, margens de erro, votos válidos, votos totais, rejeição e indecisos. Para o cidadão comum, acompanhar tudo isso exige quase um curso de estatística.
A Quaest divulgou nesta quarta-feira (21) Flávio Bolsonaro com 45% e Lula com 44%. A Meio/Ideia apresentou 51,1% a 48,9% nos votos válidos. A Palver registrou 50% a 48% nos votos totais. A RealTime Big Data apontou 52% a 48% nos válidos, enquanto o BTG/Nexus encontrou 50,3% a 49,7%; no Veritá, 50,7% a 49,3%.
Em todos esses levantamentos, Flávio aparece numericamente à frente. Mas há um detalhe fundamental: todos indicam empate técnico, consideradas as respectivas margens de erro.
Isso não significa que os candidatos tenham exatamente a mesma quantidade de votos. Significa que a diferença encontrada nas amostras não permite afirmar, com a segurança estatística pretendida, quem está efetivamente à frente no eleitorado.
Há também uma confusão frequente entre votos totais e válidos. Nos totais entram os entrevistados que declaram voto branco, nulo ou indecisão. Nos válidos, esses grupos são excluídos do cálculo. Misturar as duas medidas pode produzir interpretações equivocadas.
Outro cuidado: pesquisas de institutos diferentes não devem ser tratadas como se fossem medições feitas com a mesma régua. Metodologias, amostras, datas de entrevistas e formas de abordagem podem produzir resultados distintos.
O mais interessante, entretanto, está no comportamento do eleitor. Na pesquisa espontânea da Quaest, Lula e Flávio aparecem com 40% cada. Os indecisos chegam a 14%, o dobro do levantamento anterior. É um sinal de que existe uma parcela do eleitorado que ainda não manifesta espontaneamente uma preferência consolidada.
E há o fantasma da abstenção. No primeiro turno, cerca de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Numa eleição apertada, a capacidade de mobilizar os próprios eleitores pode pesar tanto quanto a conquista de novos votos.
O conjunto das pesquisas permite uma conclusão prudente: Flávio chega à reta final com vantagem numérica recorrente, mas Lula permanece competitivo. Nenhum dos dois pode comemorar antecipadamente.
Pesquisa não é urna. É fotografia de um momento, sujeita às limitações de qualquer levantamento amostral e fotografias não mostram necessariamente o que acontecerá quatro dias depois.
No domingo, os números deixarão as planilhas dos institutos e passarão para a contagem oficial dos votos. Até lá, a sopa continuará fervendo, mas quem vai dizer se ficou boa ou desandou será o eleitor brasileiro.



