Brasília, 24/08/2026

Braskem pede recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 56 bilhões

A Braskem, maior petroquímica da América Latina, decidiu recorrer à recuperação extrajudicial para tentar reorganizar uma dívida de aproximadamente US$ 10,9 bilhões, o equivalente a mais de R$ 56 bilhões. O Conselho de Administração da companhia aprovou nesta segunda-feira (24) o ajuizamento do pedido, que envolve também determinadas controladas e abre uma nova etapa na tentativa de reorganização financeira do grupo.

Em fato relevante encaminhado ao mercado, a companhia informou que a recuperação tem como objetivo criar um ambiente jurídico protegido para negociar e implementar a reestruturação de suas obrigações financeiras. A medida ocorre depois de meses de negociações com credores e diante do agravamento da situação financeira da petroquímica.

Segundo informações da Reuters, o acordo que permitiu avançar com a recuperação extrajudicial conta inicialmente com apoio equivalente a cerca de um terço dos credores. A companhia terá um período de proteção para negociar os termos definitivos da reestruturação. Entre as alternativas em discussão está inclusive a possibilidade de uma futura oferta de ações para reforçar o capital da empresa.

Diferentemente da recuperação judicial tradicional, a recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie diretamente com determinados grupos de credores e posteriormente submeta o acordo à homologação da Justiça. O objetivo é reorganizar as dívidas sem interromper as atividades normais da companhia.

A Braskem fez questão de ressaltar que o processo tem caráter estritamente financeiro. Segundo a empresa, as obrigações com fornecedores, clientes e demais parceiros comerciais não estão incluídas na recuperação e continuam sendo cumpridas normalmente.

A decisão é consequência de uma combinação de problemas que se acumularam nos últimos anos. Um dos principais fatores é a deterioração do mercado petroquímico internacional. O setor enfrenta desde 2022 margens reduzidas, excesso de oferta mundial, demanda mais fraca e pressão sobre os preços dos produtos químicos e das resinas.

Com receitas pressionadas e um endividamento elevado, a capacidade da Braskem de gerar recursos suficientes para administrar sua dívida foi sendo reduzida. Mesmo apresentando melhora operacional em alguns períodos, a estrutura de capital permaneceu como um dos principais problemas da companhia.

Outro componente importante da crise financeira é o desastre ambiental provocado pela exploração de sal-gema em Maceió, Alagoas. O afundamento do solo atingiu bairros da capital alagoana, obrigou dezenas de milhares de moradores a deixarem suas casas e gerou uma extensa sequência de indenizações, acordos e gastos para fechamento e monitoramento das minas.

As despesas relacionadas ao episódio de Maceió já consumiram bilhões de reais da companhia e continuam representando uma pressão relevante sobre seu caixa. O problema ambiental tornou-se, ao lado da crise internacional da petroquímica e do elevado endividamento, um dos principais fatores de deterioração financeira da Braskem.

A situação também se complicou fora do Brasil. A Braskem Idesa, operação mexicana controlada pela companhia brasileira em sociedade com o Grupo Idesa, entrou recentemente com pedido de proteção contra falência nos Estados Unidos, por meio do chamado Chapter 11.

O plano para a subsidiária mexicana prevê uma profunda reorganização financeira. Segundo a Reuters, a operação pretende reduzir sua dívida sênior de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão. A Braskem deverá aportar US$ 476 milhões para preservar o controle majoritário da empresa.

No Brasil, a dimensão da dívida transforma a recuperação extrajudicial em uma das maiores operações recentes de reestruturação financeira envolvendo uma companhia industrial brasileira.

Os credores internacionais têm papel decisivo no processo. Grande parte da dívida está concentrada em títulos emitidos no exterior, além de compromissos com bancos, instituições financeiras e investidores do mercado de capitais.

Para que o plano avance definitivamente, a Braskem terá de conquistar o apoio necessário dos credores envolvidos na recuperação. As negociações deverão definir novos prazos de vencimento, condições de pagamento, eventuais descontos, conversão ou substituição de dívidas e outras medidas destinadas a reduzir a pressão financeira.

A crise já provocou reflexos no mercado. As ações da Braskem registraram forte queda na Bolsa nesta segunda-feira após a divulgação da decisão, demonstrando a preocupação dos investidores com o tamanho do endividamento e com as condições que poderão ser estabelecidas na reestruturação.

Apesar da situação financeira delicada, a companhia apresentou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026. O resultado, porém, não foi suficiente para eliminar as preocupações relacionadas ao elevado grau de alavancagem e à capacidade da empresa de administrar seus compromissos financeiros de longo prazo.

A Braskem também atravessou recentemente uma importante mudança societária. O fundo IG4 assumiu participação relevante no controle da petroquímica após operação envolvendo a antiga Novonor, ex-Odebrecht. A Petrobras permanece como uma das principais acionistas da companhia.

A recuperação extrajudicial não significa, portanto, a paralisação ou o encerramento das atividades da Braskem. Trata-se de uma tentativa de reorganizar uma estrutura financeira que se tornou insustentável diante do volume da dívida, das dificuldades do mercado petroquímico mundial, dos custos decorrentes do desastre de Maceió e dos problemas enfrentados pela operação mexicana.

O sucesso da operação dependerá agora principalmente da negociação com os credores. Com aproximadamente US$ 10,9 bilhões — mais de R$ 56 bilhões — em obrigações financeiras submetidas ao processo, a Braskem inicia uma das fases mais delicadas de sua história.

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