Brasília, 29/08/2026

 Flávio enfrenta casos do pai e evita detalhar propostas

O senador e candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL) enfrentou uma sabatina marcada por perguntas sobre o filme “Dark Horse”, o Banco Master, a condenação de Jair Bolsonaro, os ataques de 8 de janeiro, a atuação política do irmão Eduardo e as antigas ligações do candidato com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. Na área econômica, prometeu controlar os gastos públicos, mas apresentou poucas medidas concretas.

Entrevistado nesta sexta-feira (28) pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, na TV Globo, Flávio tentou se apresentar como representante da mudança e, ao mesmo tempo, como herdeiro político do pai. Em diversos momentos, porém, precisou dedicar seu tempo a defender Jair Bolsonaro e responder a controvérsias envolvendo a própria família.

Um dos principais confrontos ocorreu em torno de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente. Flávio confirmou que procurou Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para obter recursos para a produção, mas insistiu que se tratava de uma negociação privada, sem contrapartidas políticas.

O candidato voltou a evitar a apresentação dos contratos e da prestação completa de contas do filme. Em maio, ele havia prometido que os documentos seriam divulgados em até 30 dias. Durante a sabatina, argumentou que a responsabilidade pertence à produtora Go Up Entertainment e afirmou que não recebeu dinheiro pessoalmente.

Vorcaro teria destinado aproximadamente R$ 61 milhões à produção, após negociações que chegaram a envolver US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. O financiamento é investigado pela Polícia Federal.

Ao ser pressionado sobre sua relação com o banqueiro, Flávio procurou transferir o foco para o governo Lula. Defendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master e sustentou que integrantes da atual administração também precisam explicar seus contatos com Vorcaro.

Outro momento de tensão envolveu as eleições e os ataques ao sistema de votação. Flávio afirmou que respeitará o resultado das urnas em 2026 e reconheceu que errou ao dizer que as máquinas usadas no Brasil teriam origem venezuelana. A informação já havia sido desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Apesar do reconhecimento, o candidato manteve a defesa do pai e classificou como uma “farsa” o processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado. Segundo Flávio, não existiu golpe porque não houve participação das Forças Armadas nem consumação da ruptura institucional.

O candidato prometeu conceder anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Ele procurou separar pessoas que cometeram depredações daquelas que, segundo sua avaliação, apenas participaram das manifestações, mas não explicou como seria feita essa distinção.

Flávio também foi questionado sobre a homenagem concedida por ele a Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelas autoridades como integrante de uma milícia no Rio de Janeiro. O candidato afirmou que a homenagem ocorreu em razão da atuação profissional de Adriano e negou vínculo com atividades criminosas.

Na política externa, defendeu a reaproximação com os Estados Unidos e atribuiu ao governo Lula a responsabilidade pelo aumento das tarifas impostas a produtos brasileiros. Ao falar sobre Eduardo Bolsonaro, reconheceu que o irmão errou ao agradecer publicamente ao presidente norte-americano Donald Trump pelas medidas contra o Brasil.

Flávio, entretanto, tentou minimizar a participação de Eduardo nas articulações internacionais. Sustentou que as tarifas poderiam ser revertidas com mudança na condução diplomática e uma relação mais próxima entre os dois países.

No campo econômico, prometeu fazer um ajuste fiscal sem alterar as aposentadorias ou a atual política de valorização do salário mínimo. Disse que pretende reduzir o número de ministérios, cortar cargos comissionados, combater fraudes previdenciárias e diminuir impostos.

Quando questionado sobre o crescimento da dívida pública e o tamanho dos cortes necessários, não apresentou valores, prazos ou uma relação detalhada das despesas que seriam reduzidas. Afirmou que a queda dos juros dependeria da recuperação da confiança no governo e da redução dos gastos.

O candidato também defendeu a manutenção do Pix, que classificou como “sagrado” e inegociável. Segundo ele, o sistema criado durante o governo de Jair Bolsonaro não poderá ser afetado por eventuais negociações comerciais com os Estados Unidos.

Flávio citou Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, como coordenadora de sua equipe econômica. Para a Saúde, anunciou que pretende nomear o médico Claudio Lottenberg, presidente do conselho do Hospital Albert Einstein e da Confederação Israelita do Brasil.

A escolha chamou atenção porque Lottenberg criticou a condução do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. O médico defendeu vacinação, uso de máscaras e uma coordenação nacional mais efetiva, posições que contrastaram com as adotadas pelo então presidente.

Visualmente, Flávio repetiu uma estratégia utilizada pelo pai em entrevistas eleitorais. O candidato apareceu com palavras escritas na palma da mão: “mudança”, “futuro” e “7/set”, referência provável ao ato bolsonarista marcado para 7 de setembro na Avenida Paulista.

A entrevista mostrou um candidato disciplinado na defesa de sua base, mas ainda dependente da figura política do pai. Flávio procurou responsabilizar Lula pelos problemas econômicos e internacionais, prometeu mudança e anunciou um nome para a Saúde. Por outro lado, dedicou grande parte da sabatina a responder sobre investigações, episódios do passado e controvérsias da família.

O ponto mais frágil permaneceu sendo o caso “Dark Horse”. Ao reafirmar que participou da busca por financiamento, mas recusar a apresentação dos documentos prometidos, Flávio não conseguiu encerrar as dúvidas sobre os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro.

Na economia, suas propostas ficaram concentradas em diretrizes gerais, como corte de cargos, redução de ministérios e combate a fraudes. Faltaram informações sobre a dimensão do ajuste, as áreas atingidas e as metas fiscais de um eventual governo.

Politicamente, Flávio cumpriu o objetivo de falar diretamente ao eleitorado nacional e reafirmar as principais bandeiras do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a sabatina deixou evidente o desafio de sua candidatura: convencer o eleitor de que representa o futuro sem conseguir se afastar das crises, investigações e disputas protagonizadas pelo pai, pelos irmãos e por ele próprio.  

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