A leitura de um livro nem sempre começa pelas páginas. Às vezes, ela nasce no palco, na música, no silêncio antes da primeira fala ou na emoção de interpretar um personagem. É justamente essa experiência que o projeto Um outro olhar para a leitura dramatizada no Jardim pretende proporcionar a estudantes de escolas públicas do Jardim Botânico ao transformar uma das obras mais importantes da dramaturgia brasileira em uma vivência artística coletiva.
Inspirada em Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, leitura indicada pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), a iniciativa convida 60 estudantes do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio a conhecerem a obra para além da leitura convencional. Durante três meses, eles participarão de oficinas de teatro, musicalidade na cena e introdução ao sistema Braille, culminando em apresentações abertas no Centro Educacional Jardim Mangueiral e Centro de Ensino Fundamental 01 do Jardins Mangueiral.
A proposta parte da ideia de que compreender um texto vai muito além de decifrar palavras. Ao interpretar personagens, experimentar diferentes emoções e construir coletivamente uma encenação, os estudantes são estimulados a desenvolver habilidades como comunicação, expressão corporal, criatividade, trabalho em equipe e pensamento crítico, ao mesmo tempo em que estabelecem uma relação mais afetiva com a literatura.
A inspiração para o projeto surgiu da trajetória do ator e arte-educador Thiago de Moraes. Com 25 anos de experiência no teatro e quase duas décadas de atuação em projetos educacionais, ele percebeu que os jovens muitas vezes enxergam as artes cênicas e a literatura como realidades distantes do seu cotidiano. Diante disso, Thiago idealizou a iniciativa com a intenção de sensibilizar a juventude e promover “um outro olhar” sobre a arte.
A escolha por Eles Não Usam Black-tie também não foi por acaso. Escrita por Gianfrancesco Guarnieri, a peça permanece atual ao abordar conflitos familiares, desigualdade social, relações de trabalho e a luta por direitos, temas que continuam presentes na realidade de milhares de brasileiros e dialogam diretamente com o universo dos estudantes. Nesta proposta, os participantes serão convidados a refletir sobre as escolhas dos personagens, suas contradições e os dilemas sociais apresentados na narrativa.
Segundo Thiago, a leitura dramatizada torna esse processo mais acessível e acolhedor porque transforma o texto em experiência compartilhada. “Ao emprestar a voz, o corpo e as emoções para um personagem, o aluno passa a compreender a obra de dentro para fora. Além disso, o formato acolhe a todos. O estudante que tem dificuldades de leitura se apoia no coletivo, ganha ritmo, melhora a oralidade e perde a timidez. A leitura dramatizada mostra que a literatura também pertence a eles”, afirma.
Além das oficinas de teatro e música, o projeto oferecerá atividades introdutórias sobre o sistema Braille. A proposta é apresentar aos estudantes uma ferramenta de acessibilidade utilizada por pessoas com deficiência visual, ampliando o debate sobre inclusão e autonomia e fortalecendo uma cultura de respeito às diferenças.
O percurso formativo guiará os estudantes desde a seleção e oficinas iniciais (teatro, musicalidade e Braille) até os ensaios. Na etapa final, eles apresentarão a leitura dramatizada nas escolas contempladas e em um Centro de Ensino Especial do Distrito Federal, ao lado de artistas convidados.
Embora a montagem seja o resultado mais visível da iniciativa, Thiago acredita que o maior legado ficará fora do palco.”O teatro na escola não visa formar atores, mas cidadãos conscientes e expressivos. Espero que esses estudantes levem consigo autonomia, autoconfiança e senso crítico. Quero que descubram que suas vozes têm valor e que são capazes de ocupar qualquer espaço na sociedade”, ressalta.
Ao longo das atividades, os jovens também serão estimulados a desenvolver competências que ultrapassam o universo artístico, como comunicação assertiva, empatia, criatividade, percepção sensorial e capacidade de trabalhar em equipe. Em vez de tratar os clássicos apenas como conteúdo escolar, Um outro olhar para a leitura dramatizada no Jardim mostra que eles podem ser vividos, sentidos e compartilhados, transformando o aprendizado em uma experiência capaz de permanecer muito além da sala de aula.
Para o idealizador, o impacto mais duradouro será a formação de novos leitores e espectadores. “Quero que esses jovens continuem frequentando teatros, consumindo literatura e enxergando a arte como um instrumento de transformação em suas vidas”, finaliza.
SERVIÇO
Um outro olhar para a leitura dramatizada no Jardim
Data: Até 11 de novembro
Local: Centro Educacional Jardim Mangueiral e Centro de Ensino Fundamental 01 do Jardins Mangueiral
