O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) estão numericamente empatados na disputa pela Presidência da República. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (7) mostra os dois candidatos com 41% das intenções de voto em uma simulação de segundo turno.
No levantamento anterior, publicado em 2 de setembro, Lula tinha 42% e Flávio, 41%. A oscilação de um ponto do presidente ocorreu dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais, mas transformou o empate técnico que já existia em igualdade também numérica.
A pesquisa foi realizada em meio à crise aberta no Supremo Tribunal Federal envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça e as investigações sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O episódio passou a ocupar o centro da campanha eleitoral, embora ainda não seja possível medir com precisão seu impacto sobre o comportamento dos eleitores.
Lula adotou uma postura cautelosa durante a crise. Evitou uma defesa direta de Moraes e demorou a se pronunciar de maneira mais clara sobre as denúncias. Em vídeo publicado durante o período da pesquisa, defendeu que as investigações alcancem qualquer autoridade e procurou atribuir ao governo parte do mérito pelas apurações do caso Banco Master.
A estratégia do presidente tem sido manter distância do confronto entre os ministros e sustentar o discurso de que ninguém está acima da lei. O silêncio inicial, entretanto, abriu espaço para que seus adversários tentassem associá-lo a Moraes e apresentassem o governo como parte de uma articulação destinada a proteger o ministro.
Flávio Bolsonaro seguiu caminho oposto. O candidato do PL partiu para o ataque, cobrou um posicionamento de Lula, pediu a saída de Moraes e passou a defender André Mendonça. Também explorou a antiga proximidade institucional entre o Palácio do Planalto e integrantes do Supremo para alimentar o discurso de que Lula e Moraes pertencem ao mesmo campo político.
No ato de 7 de Setembro realizado na Avenida Paulista, Flávio afirmou que votar em Lula significaria votar em Moraes. O discurso consolidou a tentativa de transformar a crise do STF em combustível eleitoral e de recuperar uma das principais bandeiras mobilizadoras do bolsonarismo.
Essa manifestação, porém, não foi captada pela Quaest. As entrevistas foram realizadas entre os dias 3 e 6 de setembro, antes do ato da Avenida Paulista. O levantamento registrou apenas as primeiras repercussões da crise e os ataques feitos por Flávio nos dias anteriores. O efeito completo das estratégias dos dois candidatos somente poderá ser observado nas próximas pesquisas.
No primeiro turno, Lula permanece na liderança, com 36% das intenções de voto, um ponto abaixo dos 37% registrados anteriormente. Flávio aparece com 29%, o mesmo percentual da rodada passada, mantendo uma distância de sete pontos em relação ao presidente.
Augusto Cury (Avante), que havia alcançado 10% e se consolidado na terceira colocação, recuou para 8%. Apesar da queda, o escritor continua à frente dos demais candidatos que tentam construir uma alternativa à polarização entre Lula e o bolsonarismo.
Renan Santos (Missão) manteve 3%. Ronaldo Caiado (PSD) subiu de 1% para 3%, enquanto Romeu Zema (Novo) passou de 1% para 2%. Samara Martins (UP) aparece com 1%. Os demais candidatos não pontuaram. Brancos e nulos somam 8%, e os indecisos representam 10%.
A pesquisa também apresentou um cenário com Pablo Marçal, candidato do PRTB que está inelegível e proibido de fazer campanha. Sua presença praticamente não altera o quadro: Lula mantém 36%, Flávio aparece com 29%, Cury registra 8%, Renan e Caiado têm 3%, Zema soma 2% e Marçal e Samara ficam com 1% cada.
Os números indicam que a disputa continua concentrada em Lula e Flávio. Os demais candidatos somam percentuais insuficientes para ameaçar, neste momento, a presença dos dois no segundo turno. O recuo de Cury também interrompe, ao menos temporariamente, a expectativa de crescimento acelerado de uma candidatura fora dos dois polos.
A situação do governo oferece outro sinal de atenção para Lula. A desaprovação de sua administração oscilou de 48% para 50%, enquanto a aprovação caiu de 45% para 43%. As mudanças também estão dentro da margem de erro, mas ampliam numericamente a diferença entre os que rejeitam e os que aprovam o terceiro mandato.
O empate no segundo turno mostra que a vantagem de Lula na primeira etapa não se converte automaticamente em favoritismo na disputa final. Flávio consegue agregar parte considerável dos eleitores dos candidatos de direita e mantém o confronto presidencial completamente aberto.
A crise no Supremo surge nesse cenário como um tema de elevado potencial eleitoral. Flávio tenta assumir o comando da indignação contra Moraes e apresentar-se como defensor de uma mudança na Corte. Lula procura preservar a posição institucional da Presidência, sem assumir o custo de uma defesa incondicional do ministro.
O presidente enfrenta um dilema. Se permanecer excessivamente silencioso, permitirá que Flávio domine a narrativa. Se defender Moraes de maneira enfática, poderá ser atingido pelo desgaste da crise. A alternativa adotada até agora consiste em apoiar as investigações e evitar personalizar sua posição, estratégia que reduz riscos imediatos, mas pode transmitir uma imagem defensiva.
Flávio também possui vulnerabilidades. As investigações sobre o Banco Master chegaram a relações de aliados do bolsonarismo com Vorcaro, incluindo os recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro. Ao concentrar os ataques em Moraes, o senador tenta afastar de si os desdobramentos do mesmo escândalo que utiliza contra o adversário.
A Quaest não demonstra que a crise do STF tenha provocado o empate. As alterações foram pequenas e ocorreram dentro da margem de erro. O levantamento revela, porém, que o episódio encontrou uma eleição já equilibrada e pode influenciar uma disputa na qual qualquer movimento é capaz de alterar o resultado.
A Quaest ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre os dias 3 e 6 de setembro. Contratado pelo Grupo Globo, o levantamento tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, nível de confiança de 95% e está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-01720/2026.”