Luiz Carlos Bordoni
A definição do PSD por lançar Ronaldo Caiado à Presidência da República produziu duas reações emblemáticas dentro do próprio partido — e, mais do que isso, revelou duas visões distintas sobre o momento político nacional.
De um lado, o pragmatismo institucional de Ratinho Junior. De outro, o desconforto estratégico de Eduardo Leite.
Ratinho: a escolha como gesto de unidade
Ratinho foi o primeiro a se manifestar — e o fez em tom de alinhamento. Ao elogiar Caiado, destacou atributos de gestão e apresentou a decisão como um gesto democrático do partido.
A leitura é clara: preservar a coesão interna. Ao retirar-se previamente da disputa e anunciar que concluirá seu mandato no Paraná, Ratinho já havia sinalizado que não seria vetor de conflito dentro da legenda comandada por Gilberto Kassab. Sua reação reforça esse papel: o de fiador da estabilidade partidária. Mais do que apoiar Caiado, Ratinho protege o PSD.
Leite: a crítica à rota escolhida
Já Eduardo Leite seguiu outro caminho — mais sutil na forma, mas contundente no conteúdo.
Sem citar diretamente Caiado, manifestou “desencanto” e associou a decisão à manutenção da polarização no país. Em outras palavras, sua crítica não é apenas ao nome escolhido, mas ao rumo estratégico do partido.
Leite se posicionava como alternativa de centro, com discurso de moderação e tentativa de romper o eixo tradicional da disputa nacional. Ao ver o PSD optar por Caiado — identificado com um campo mais à direita —, interpreta a decisão como uma adesão à lógica binária que domina o cenário político.
O pano de fundo: polarização persistente
A divergência entre os dois governadores revela mais do que uma disputa interna. Ela espelha o dilema central da política brasileira: romper ou navegar na polarização.
Ratinho opta por navegar — reconhece o cenário e busca posicionar o partido de forma competitiva dentro dele. Leite, ao contrário, insiste na ideia de ruptura — ainda que, por ora, sem espaço eleitoral claro.
Caiado no centro do tabuleiro
A escolha de Ronaldo Caiado consolida o PSD como um ator relevante na disputa, mas também o posiciona em um campo mais definido do espectro político.
Isso tem implicações. Se, por um lado, fortalece a competitividade imediata, por outro reduz a margem para o discurso de centro — justamente o espaço que Leite buscava ocupar.
Ponto final:
As reações de Ratinho e Leite são, no fundo, dois caminhos possíveis para o mesmo partido. Um escolhe a disciplina e a viabilidade eleitoral. Outro insiste na construção de uma alternativa fora da lógica dominante.
Entre a unidade e a inquietação, o PSD revela que sua escolha foi menos sobre nomes — e mais sobre qual jogo pretende jogar em 2026.



