O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta um impasse cada vez maior na guerra contra o Irã. Mais de cinco meses depois do início do conflito, ele continua recorrendo a ameaças de ataques devastadores para pressionar Teerã, mas acaba recuando e retomando as negociações. A estratégia, que pretendia demonstrar força, começa a produzir o efeito contrário: aumenta as dúvidas sobre a capacidade de Washington de impor uma solução ao conflito.
O episódio mais recente ocorreu no último fim de semana, quando Trump anunciou o cancelamento de um ataque que classificou como “massivo” e que, segundo ele, seria o maior desde a Segunda Guerra Mundial. O presidente alegou que havia recebido apelos de aliados americanos e que acreditava existir uma possibilidade de acordo com o Irã.
O problema é que o acordo não veio. As negociações entre Irã e Omã sobre a navegação no Estreito de Ormuz continuam sem uma solução, enquanto a passagem permanece fechada. Antes da guerra, cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo passava pelo estreito, o que transforma a região em um dos principais pontos estratégicos do conflito.
A repetição das ameaças e dos recuos já chamou a atenção internacional. Em uma reportagem sobre a guerra, o jornal britânico The Guardian observa que Trump repetiu pelo menos sete vezes, desde o início do conflito em 28 de fevereiro, a fórmula de ameaçar uma ofensiva de grandes proporções e depois voltar à mesa de negociações.
Em abril, Trump chegou a afirmar que a “civilização iraniana morrerá esta noite” caso Teerã não aceitasse suas exigências. Pouco depois, entretanto, recuou e concordou com um cessar-fogo.
O presidente americano também declarou diversas vezes que os Estados Unidos estavam “virtualmente” vencendo a guerra e que os líderes iranianos desejavam um acordo. A continuidade da resistência de Teerã, porém, enfraqueceu essas afirmações.
Uma montagem da CNN reuniu 14 declarações feitas por Trump em março nas quais ele dizia que a paz estava próxima porque os iranianos queriam negociar. As previsões não se confirmaram, e o Irã continuou demonstrando capacidade de atacar forças americanas e seus aliados no Oriente Médio.
A situação chegou ao terreno da ironia. O jornalista britânico Andrew Neil afirmou sarcasticamente que Trump havia conseguido trazer a paz à guerra com o Irã oito vezes em cinco meses, numa referência às sucessivas declarações presidenciais sobre o fim iminente do conflito.
Para analistas ouvidos pelo The Guardian, entretanto, o problema é mais profundo do que as contradições públicas de Trump. A sequência de ameaças e recuos revelaria a ausência de uma estratégia consistente e uma compreensão insuficiente do regime iraniano.
O cientista político Mehrzad Boroujerdi, da Missouri University of Science and Technology, considera que Trump cometeu um erro fundamental ao acreditar que a pressão militar seria suficiente para obrigar Teerã a capitular.
Segundo Boroujerdi, regimes surgidos de grandes revoluções, como a Revolução Islâmica de 1979, apresentam uma capacidade de resistência diferente da de governos convencionais. Seus dirigentes possuem vínculos históricos, políticos e pessoais muito fortes com o sistema que os levou ao poder.
O especialista dedicou duas décadas ao estudo da elite iraniana e reuniu informações sobre aproximadamente 2.700 integrantes desse grupo. Ele também é coautor de um livro de cerca de 900 páginas sobre a estrutura política do Irã pós-revolucionário.
A pesquisa ajuda a explicar a sobrevivência do regime diante de décadas de hostilidade americana, sanções econômicas, isolamento diplomático e conflitos militares.
Muitos dos atuais integrantes da elite iraniana, segundo Boroujerdi, vieram de famílias humildes. São filhos de agricultores e camponeses, além de integrantes do clero que conquistaram poder e mobilidade social depois da revolução.
Essas pessoas devem sua ascensão ao próprio sistema que hoje defendem. Por isso, a ameaça de derrubada do regime pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado por Trump: aumentar a disposição de seus dirigentes para resistir.
A dificuldade de compreender essa estrutura também teria levado Washington a interpretar de maneira equivocada a reação iraniana aos ataques americanos e israelenses.
A eliminação de integrantes importantes da liderança iraniana não provocou o colapso esperado. Ao contrário, reforçou entre os dirigentes a percepção de que estão lutando pela sobrevivência do regime.
A frustração de Trump tornou-se ainda mais evidente depois do fracasso do cessar-fogo acertado em junho. Durante a cúpula da Otan em Ancara, no mês passado, o presidente americano chamou os líderes iranianos de “escória” e afirmou que eles o deixavam com raiva.
Para Boroujerdi, a incompreensão sobre o adversário indica que Trump provavelmente continuará alternando ameaças extremas e tentativas de negociação.
Ali Vaez, do International Crisis Group, chega a considerar praticamente impossível identificar uma estratégia coerente na política americana para o Irã. Segundo ele, falta à administração Trump um processo político claro para conduzir o conflito.
Ao mesmo tempo, o Irã teria fortalecido sua posição de negociação no Estreito de Ormuz desde o fracasso do cessar-fogo.
A situação militar também limita as alternativas de Washington. Ataques recentes contra uma base americana na Jordânia, que mataram três militares dos Estados Unidos, aumentaram o debate sobre os riscos de uma nova ofensiva.
Há ainda preocupações sobre a disponibilidade de mísseis e interceptadores americanos, depois de meses de operações militares.
Na avaliação de Vaez, Trump está reagindo principalmente à falta de boas opções militares. Quando sofre pressão política por negociar com o Irã, aumenta as ameaças de bombardeio. Quando percebe que a escalada pode produzir consequências ainda piores, retorna às negociações.
É esse movimento que explica a atual situação: Trump ameaça para demonstrar força, recua quando os custos aumentam e volta a negociar sem conseguir um acordo definitivo.
A guerra, que deveria produzir uma vitória rápida, transformou-se em um conflito prolongado. E cada novo recuo depois de uma ameaça de grande ofensiva enfraquece a imagem de que os Estados Unidos controlam o rumo da guerra.
Para os especialistas citados pelo The Guardian, o erro original foi subestimar o adversário. A administração Trump teria imaginado que a superioridade militar americana seria suficiente para obrigar o Irã a se render.
Cinco meses depois, o cenário é outro. O Irã continua resistindo, mantém capacidade de atingir forças americanas e seus aliados e conserva no Estreito de Ormuz uma importante ferramenta de pressão internacional.
Trump, portanto, enfrenta um dilema que sua própria estratégia ajudou a criar: não consegue obter pela força a vitória que esperava e também não consegue, por meio da negociação, alcançar um acordo que lhe permita declarar o fim da guerra em seus próprios termos.
A consequência é uma perda gradual de força política e de credibilidade. Quanto mais o presidente ameaça e recua, mais difícil se torna convencer aliados, adversários e a própria opinião pública de que existe um plano capaz de levar o conflito a um desfecho favorável aos Estados Unidos.



