Brasília, 30/10/2026

Trump não pretende reconhecer Flávio Bolsonaro como ‘líder legítimo’ do Brasil, diz agência

247 – O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem planos de reconhecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como líder legítimo do Brasil, apesar de ter participado das articulações que permitiram a chegada do senador à Flórida após sua derrota na eleição presidencial. A posição indica que a Casa Branca pretende evitar uma nova deterioração das relações diplomáticas com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A informação foi divulgada nesta quinta-feira (30) pela agência Reuters, com base nos relatos de um funcionário estadunidense e de outra pessoa familiarizada com as discussões internas do governo Trump. Segundo as fontes, que falaram sob condição de anonimato, o presidente Donald Trump não pretende, neste momento, apoiar as reivindicações políticas de Flávio Bolsonaro, embora essa posição possa ser revista.

A decisão representa um contraste com a assistência prestada ao senador para deixar a América do Sul. Integrantes do governo americano ajudaram a viabilizar sua entrada nos Estados Unidos, enquanto aliados próximos de Trump participaram da organização da viagem que levou o candidato derrotado de território argentino a Miami.

Trump chegou a questionar a legitimidade da eleição brasileira de domingo (25), afirmando que o resultado parecia “fraudado”. Entretanto, ressaltou que não havia declarado apoio a nenhum dos candidatos e evitou atacar diretamente Lula, reeleito com uma vantagem de 3,5 pontos percentuais.

Na segunda-feira (26), o presidente estadunidense declarou a jornalistas: “gosto do Lula, me dou muito bem com ele”. Em seguida, acrescentou que “só acho que a eleição teve uma imagem muito ruim.”

Casa Branca ajudou Flávio a chegar aos Estados Unidos

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil foi organizada às pressas depois que um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a entrega de seu passaporte, atendendo a uma solicitação da Polícia Federal.

O senador é investigado por suspeitas de envolvimento em dois esquemas de lavagem de dinheiro. O pedido da PF ocorreu poucos minutos depois da confirmação da vitória de Lula, segundo relatos da imprensa brasileira citados pela agência.

A operação de saída do país contou com a participação de pessoas próximas ao governo americano. Uma fonte familiarizada com o episódio afirmou que Jason Miller, assessor de Trump e aliado da família Bolsonaro, ajudou a organizar o voo que partiu da Argentina.

Durante o deslocamento, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, recomendou a Trump que autorizasse a entrada de Flávio nos Estados Unidos. O presidente aceitou a recomendação, conforme relatou um funcionário americano à Reuters.

Integrantes do Departamento de Estado também mantiveram contatos com representantes do Departamento de Segurança Interna para identificar o mecanismo jurídico que permitiria receber o senador e seus familiares.

A solução adotada foi uma autorização humanitária temporária de entrada, instrumento utilizado pelas autoridades americanas em situações consideradas de urgência humanitária ou de significativo interesse público.

Fuga passou pela Argentina e pelo Equador

Informações fornecidas pelas autoridades argentinas indicam que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil acompanhado da esposa e das duas filhas.

A família atravessou uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira (27). Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, embarcou em uma aeronave fretada.

O trajeto até Miami incluiu uma escala no Equador. Na quarta-feira (28), o senador desembarcou no Aeroporto Executivo de Opa-locka, próximo à cidade americana.

Ainda não foi esclarecido como Flávio percorreu aproximadamente 1.300 quilômetros entre Brasília e a região da fronteira argentina, nem de que maneira deixou o território brasileiro sem que sua saída fosse identificada pelas autoridades responsáveis pelo controle migratório.

Durante o deslocamento, o senador entrou em contato com diversos funcionários estadunidenses para tratar de sua partida, segundo uma das fontes ouvidas pela Reuters.

Flávio reivindicou condição de presidente eleito

Depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro publicou uma carta aberta na rede social X em que se apresentou como “o presidente eleito” do Brasil.

Posteriormente, apagou a primeira versão do documento e publicou outra, na qual passou a reivindicar a condição de legítimo “líder” do país.

A mudança de linguagem ocorreu em meio à ausência de reconhecimento internacional de sua reivindicação e à decisão da Casa Branca de não endossar sua posição.

Segundo um terceiro funcionário estadunidense ouvido pela Reuters, a avaliação é que o capital político do senador diminuiu depois de sua decisão de permanecer fora do Brasil.

A avaliação também é compartilhada por setores conservadores e de extrema direita brasileiros que esperavam que Flávio liderasse a oposição ao novo mandato de Lula. A saída do país provocou críticas entre integrantes desse campo político.

Funcionários brasileiros consultados pela agência, igualmente sob anonimato, avaliaram que a decisão favorece Lula, por enfraquecer a oposição conservadora no Congresso Nacional.

O episódio também foi precedido por declarações do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio Bolsonaro, que havia sugerido publicamente, dias antes da votação, que o candidato deixasse o Brasil caso fosse derrotado.

Eduardo vive nos Estados Unidos e foi condenado no Brasil, em junho, em um processo relacionado à tentativa de influenciar o governo dos EUA no julgamento de seu pai, o ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL).

Relação entre Trump e Lula pesa na decisão americana

A postura adotada por Washington ocorre depois de um período de oscilações nas relações entre os dois países.

No ano passado, o governo estadunidense impôs sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, magistrado responsável pelo julgamento de Jair Bolsonaro e a outros integrantes do governo do ex-mandatário por tentarem um golpe de Estado após o pleito eleitoral de 2022. As medidas foram posteriormente suspensas, depois de uma aproximação entre Trump e Lula durante a Assembleia Geral das Nações Unidas.

Durante a campanha presidencial brasileira, o governo Lula também manifestou objeções ao que classificou como tentativas de integrantes da administração Trump de favorecer Flávio Bolsonaro.

Essas divergências contribuíram para a decisão brasileira de não dar andamento à posse do futuro embaixador dos Estados Unidos no país, um aliado próximo de Marco Rubio.

Na semana passada, a Reuters revelou que dois funcionários conservadores do Departamento de Estado haviam defendido com sucesso a imposição de sanções ao Brasil e a classificação de duas organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Segundo a reportagem, as iniciativas tinham como objetivo influenciar a disputa eleitoral em benefício de Flávio Bolsonaro.

Apesar desse histórico de atritos, Trump evitou romper com Lula depois da confirmação do resultado das urnas.

Família Bolsonaro enfrenta novo cenário político

A saída de Flávio Bolsonaro em um momento de dificuldades para o clã. Seu pai, Jair Bolsonaro, que governou o Brasil entre 2019 e 2022, está preso desde o ano passado após condenação por tentativa de golpe de Estado destinada a impedir a transferência de poder depois de sua derrota eleitoral de 2022.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, disputou a Presidência em 2026, mas foi derrotado por Lula, que conquistou um novo mandato aos 81 anos.O parlamentar também é investigado pela Polícia Federal pela suspeita de lavagem de dinheiro.

A decisão do senador de deixar o país, seguida de sua tentativa de se apresentar como liderança legítima do Brasil, acrescentou um novo elemento de tensão ao cenário político.

A Casa Branca encaminhou ao Departamento de Estado o pedido de manifestação da Reuters sobre o caso, mas a pasta não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio Bolsonaro também não se pronunciaram até a publicação da reportagem.

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