Brasília, 31/10/2026

O mal do mundo não é a diferença. É o ódio ao diferente

Luiz Carlos Bordoni 

O racismo, a xenofobia e a discriminação revelam uma sociedade que avança na tecnologia, mas ainda tropeça nos princípios mais elementares da civilização.

Há alguma coisa profundamente errada com a humanidade. Conquistamos o espaço, desenvolvemos a inteligência artificial, desvendamos mistérios da ciência, encurtamos distâncias. Mas continuamos incapazes, muitas vezes, de realizar a mais simples das tarefas humanas: respeitar o próximo. O ódio parece ter adquirido cidadania universal. E o que deveria nos enriquecer, a diversidade, transformou-se, para muitos, em motivo de perseguição.

Racismo, xenofobia, intolerância religiosa, discriminação política, etarismo, capacitismo. São diferentes manifestações de uma mesma enfermidade moral: a incapacidade de reconhecer no outro um ser humano com a mesma dignidade, os mesmos direitos e o mesmo merecimento de respeito.

De onde vem tanta perversidade?

Parte da resposta está na história. Séculos de colonialismo, escravização e exploração construíram hierarquias artificiais entre povos e pessoas. Inventaram superioridades raciais, culturais e sociais para justificar a dominação. A escravidão acabou legalmente, os impérios coloniais ruíram, mas muitos de seus preconceitos sobreviveram, transmitidos de geração em geração.

Outra parte está na ignorância. O desconhecimento alimenta estereótipos. Quem não conhece determinada cultura passa a temê-la. Quem não compreende uma religião pode demonizá-la. Quem não aceita opiniões diferentes transforma o adversário em inimigo. É o etnocentrismo: a presunção absurda de que nossa origem, nossa cultura e nossas convicções nos tornam superiores aos demais.

Há também o medo. Em tempos de dificuldades econômicas, desemprego e insegurança, surgem os vendedores de culpados. O imigrante rouba empregos. O pobre ameaça a ordem. O estrangeiro representa perigo. O adversário político é inimigo da pátria. São explicações simplistas, convenientes para quem pretende manipular multidões pela exploração de ressentimentos.

Mas existe algo ainda mais grave: a desumanização.

Quando alguém deixa de enxergar o outro como pessoa e passa a tratá-lo como ameaça, invasor, inferior ou inimigo, rompe-se uma das últimas barreiras contra a barbárie. Foi assim que regimes totalitários justificaram perseguições, deportações e extermínios. Primeiro vieram os rótulos. Depois, a exclusão. Finalmente, a violência.

O ódio raramente começa com uma arma. Frequentemente começa com uma palavra.

E hoje as palavras encontram nas redes sociais uma velocidade assustadora. A ofensa viraliza, a mentira mobiliza, a intolerância conquista seguidores. Há quem pregue boicotes comerciais por divergências políticas, estimule demissões por preferência eleitoral ou transforme a origem regional de alguém em motivo de humilhação.

Não confundamos liberdade de expressão com licença para perseguir. Democracia não é o direito de destruir moralmente quem pensa diferente. É precisamente a garantia de que podemos discordar sem nos desumanizarmos.

O Brasil possui instrumentos legais para enfrentar essas práticas. A Lei nº 7.716/1989, modificada pela Lei nº 9.459/1997 e por legislações posteriores, criminaliza determinadas condutas discriminatórias motivadas por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Mas nenhuma legislação, isoladamente, será capaz de produzir aquilo que deveria nascer da consciência: respeito.

É preciso educar para a convivência, cultivar a empatia, combater a ignorância e responsabilizar quem transforma preconceitos em agressões. Sobretudo, precisamos compreender que ninguém se torna maior diminuindo o semelhante.

Não somos obrigados a pensar igual, votar igual, rezar igual ou viver segundo os mesmos costumes. Somos, entretanto, moralmente obrigados a reconhecer a dignidade de cada pessoa.

A humanidade não precisa de mais muros entre os homens. Precisa de pontes entre os corações. O mundo não será melhor quando todos forem iguais. Será melhor quando aprendermos a respeitar nossas diferenças, porque a verdadeira medida de uma civilização não está na tecnologia que domina, na riqueza que acumula ou nas armas que fabrica. Está na maneira como trata seus semelhantes e, nesse exame, infelizmente, ainda estamos sendo reprovados.

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